“Eeny, meeny, miny, mo, catch a tiger by the toe.
If he hollers let him go, eeny, meeny, miny, mo”






Assassinos por Natureza consegue ser escarnecedor do começo ao fim. Com roteiro de Quentin Tarantino e uma direção peculiar de Oliver Stone, toda a história que tange o casal Mallory e Mickey transborda sangue de uma maneira fria, porém com forte grau de entretenimento. O trabalho de Stone é autoral, foge muito de um padrão de edição comum Holywoodiano e não deixa a desejar. Pulando de técnica em técnica, ilustrações, imperfeições da câmera como filmes antigos, preto e branco, closes repetidos em rostos maliciosos, o começo do filme pode parecer um Saturday Night Live que não te deixa piscar.
Mickey (Woody Harrelson) e Mallory (Juliette Lewis) é um casal de assassinos, que aparentemente matam pelo simples prazer de matar. Stone demonstra facilmente esta característica do casal nos segundos iniciais do filme, com Leonard Cohen tocando ao fundo e animais selvagens sendo focados, alternando do preto e branco para o colorido. Bem mais pra frente do filme, o índio que surge na história conta sobre uma senhora que salvou uma cobra e esta mordeu ela quando se recuperou. Dá completo sentido para o final do filme e acentua tudo o que já foi visto anteriormente.

Mas, pode o filme estar colocando uma carcaça de Cool sobre os assassinos? Fãs do casal (no filme) torcem por Mickey e Mallory, como se fossem heróis. E a vida de ambos são refletidas talvez como uma justificativa da atitude e comportamento dos psicopatas. De Mallory, o foco foi maior, e representa a melhor cena do filme todo: Uma sátira de programas de TV antigos, com uma família tipicamente americana soltando piadinhas também tipicamente americanas e risadas de diversão soando ao fundo. Mas, o que nos é passado na cena e nas falas dos personagens (os pais de Mallory) estão longe de ser algo a la Married With The Children. Você não ri, acha até absurdo demais quando entende a lascividade nos olhos do pai de Mallory para cima da própria filha. A risada ao fundo dos espectadores do seriado passa a ser incoerente. Este é o cúmulo do escárnio, pois claramente percebemos isso, assim como o mundo costuma rir de tanta coisa ridícula e errada por aí. Haverá alguém assistindo com repulsa enquanto nos desatamos a rir de nós mesmos? Eis a reflexão.
Voltemos a analisar o foco do filme: “Mallory e Mickey sabem a diferença entre o certo e o errado, apenas não dão a mínima para isso”. Oliver Stone não faz você endeusar dois seres como Mallory e Mickey. É muito comum ver críticas em cima de filmes assim (que podem causar a impressão de apologias de qualquer coisa errada, como é Trainspotting com as drogas). Entretanto, considerando a montagem de toda a história, e a excessiva inclusão da mídia durante o filme todo, se torna quase evidente que Oliver Stone dá um tapa na cara da própria mídia e no mundo, com essa curiosidade excessiva que todos constumam ter sobre a mente psicótica. Vide Charles Manson, muito citado no longa. É muito fácil apontarem um filme mais como uma inconsciente apologia a violência, a partir do momento que entendemos que é uma crítica social, parece mais fácil (no caso para aqueles que apontam o dedo) acreditar do contrário. Afinal, o cômodo é sempre mais prático.

Mas, Stone toma cuidado de deixar todos os elementos, e até mesmo a atuação do elenco de uma forma sarcástica, para reforçarmos a idéia de escárnio contra a imprensa. Tanto, que um dos detalhes que acreditei negativos no filme, podem ser uma das justificativas para isto: O personagem do apresentador do programa, interpretado pelo Robert Downey Jr e até mesmo Tommy Lee Jones, parecem ser caricatos demais, ainda mais com suas histerias winehóusticas quando as coisas saem dos eixos. Chegamos a nos sentir como se estivéssemos assistindo aquelas aventurinhas bobas da televisão.
Outro ponto que dá uma ruptura incômoda no filme, é a passagem da primeira parte, que conta do “romance” do casal alternando com flashbacks de ambos para então a segunda parte que [COMEÇO DO SPOILER] mostra um tempo real sobre como o casal é preso. A segunda parte é bem interessante, mas no final da primeira, temos a impressão passageira de um final de filme. Aí a cena de Mallory enfraquecida pela picada da cobra se arrasta. De qualquer forma, o filme volta a ganhar força mais ou menos na parte da entrevista de Wayne (Robert Downey Jr.) com Mickey. [/FINAL DO SPOILER]

Em relação a atuação de Woody Harrelson e Juliette Lewis, não temos muito o que reclamar: Harrelson que já tem uma feição meio de problemático mascando chiclete com sorrisinho lateral (que manteve a faceta em Zumbilândia) se mostra bem qualificado, ainda mais para interpretar um piscopata. Juliette Lewis tem aquela fala enrolada (que também mantém em Simples Como Amar onde tem problemas mentais – só que não mata) e representa bem seus ataques, surtos, e também uma faceta meio tímida e triste em certos momentos. Já Robert Downey Jr. tem um papel medíocre, então dentro de suas limitações, também não deixa a desejar.
No mais, a linda voz de Leonard Cohen soando ao fundo. Espetáculo.
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