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Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte II (2011)

15 jul

“Of course it’s happening inside your head harry, but why on earth should that mean that it is not real?”

Contém spoilers

David Yates recrutou todas as criancinhas do clipe de Another Brick in The Wall do Pink Floyd, pagou um cachezinho, e uns cachecois quentinhos de cada casa e criou para Hogwarts um ar sombrio que dá tristeza quase da mesma forma de quando se lê a descrição do que a escola se tornou no livro…

Ver Hogwarts cinza, representado na boa fotografia do longa (coisa que não podemos reclamar) em ruínas e sem luz, é de dar pena e saudade, até para nós os espectadores que acabam lembrando com nostalgia quando o menino Harry botou na cabeça o Chapéu Seletor. Porque nada é como antes, o caos reina, Voldemort tá todo meninão (destaque pra risadinha de tio do churrasco dele no quase final) e Harry agora não brinca mais de Vingardium Leviosa

Tudo é enebriante no filme, não há momentos para levantar e ir no banheiro. Você quer absorver exatamente tudo que o final da saga tem pra mostrar, ou pelo menos absorver quase tudo daquilo que lembra ser relevante no livro. E em matéria de adaptação, Yates se saiu bem, apesar de infelizmente não me recordar como era exatamente o final do livro. Pra quem leu, me ajudem… Aquela ceninha de aventura de Voldemort com Harry realmente acontece? Pois pra mim, quando Harry volta do bate papo com Dumbledore, ele já resolveu a situação lá na Terra…

Mas, voltemos ao filme: O beijo Hollywoodiano de Ron com Hermione foi desnecessário, serviu pra um bando de menininhas berrar no meu ouvido no cinema. Acredito que poderia ser melhor trabalhado… Idem ao beijo rápido de Gina com Harry, meio fora de contexto, parecendo que entrou lá porque não tinha mais outra cena pra entrar.

Outro problema, já de longa data é nosso querido Ralph Fiennes sem nariz, como Voldemort. Ele não é uma figura que dá medo. Nunca foi. E convenhamos, aquela risadinha dele ainda (que não me conformo) beirou o ridículo. Nagini dá mais medo que Voldemort…

E o ápice? Snape, claro. Tanto a cena de sua morte (pela Nagini, cruel) quanto suas lembranças na Penseira momentos depois. Pena que pra quem só viu o filme e não leu os livros, assistiu a morte de Snape com rancor no coração a la “MORRE DIABO”. Eu chorei tudo que tinha pra chorar ali. E mais ainda na lição de Harry ao seu filho depois sobre Severo Snape. Essa é uma das partes que mais gosto na história de Rowling: Não é a casa Sonserina que guarda pessoas ruins. De Sonserina saiu Voldemort, mas também saiu Severo Snape, um bruxo corajoso que amou Lilian do começo ao fim. Não tem como não se emocionar quando ele olha para Harry e diz que ele tem os olhos da mãe.

A segunda coisa legal é Neville LongBullying que destrói a cobra MALA, e faz um discurso que… bem… esta foi outra coisa Hollywoodiana que eu deixava passar. O discurso de Sam do Senhor dos Anéis foi mais bonito (se é que me permitam comparar).

Última tosquice cinematográfica: 19 anos depois e a trupe toda ainda conserva um semblante bonitinho? Desculpa ae produção, mas a maquiagem poderia ser melhor trabalhada. O único que mais convence é o próprio Harry.

Mas, ei pessoal! Acabou! Não verei mais Cosplay da Grifinória nos cinemas, e isso tudo contribuiu pra gente sair emocionado do cinema. Porque Harry Potter marcou absurdamente e não temos mais nenhum filme para esperar. Bem verdade que o trio Radcliffe, Watson e Grint devem ter dado graças a Deus, mas a gente sempre fica com a sensação de querer mais.

Edward Mãos de Tesoura (1990)

29 jun

“Kevin, you wanna play scissors, paper, stone again?”

Se há um exemplo cinematográfico claro sobre forma e conteúdo, função e estética, atribuimos este filme como um dos principais. Gravado num bairro pacato da Flórida, Burton (que estartou sua fama a partir deste filme, junto com Depp) pintou todas as casas com cores vivas e saturadas. O personagem principal era uma figura sombria, com a pele branca roupas escuras. Quase uma junção de Caligari com The Cure.

Através deste contraste metafórico entre o sombrio e o colorido vivo, se contava a história do Estranho VS Socieadade Comum. Todos eram iguais exceto Edward, uma invenção não finalizada com suas mãos de tesoura que tornava-o incapaz de tocar qualquer coisa sem ferir. E a graça toda do filme: Era Edward o mocinho de coração puro. E todo o “mundo colorido” os grandes vilões…

Considerado um dos melhores trabalhos de Burton (na verdade, o melhor), Edward traz um roteiro diferente, ao mesmo tempo que simples, soando quase como uma fábula triste sobre uma figura que buscava a aceitação de todos. É uma alusão nítida sobre preconceitos através da imagem. Vemos no personagem uma inocência que a princípio parece não condizer com suas características. Edward é a personificação da esquisitice humana que pode ser amada por uns, desprezada ou injustiçada por outros.

Kim (Winona Ryder) é uma das poucas que de fato percebe Edward como se fosse um humano e Edward por sua vez se apaixona pela garota que sabe que não pode abraçá-la, por mais que queira. Johnny Depp, apesar de dizer somente 169 palavras no filme todo, ganhou destaque e marcou sua carreira interpretando o sombrio Edward, ganhando aí um passaporte da alegria eterno com Burton entre decepções e acertos posteriores. Winona é morna, como acredito que é em quase todas atuações, mas cumpre a sutileza e traços doces que seu personagem traz, intercalando uma leve maquiada perversão para se aproveitar de Edward, como os outros.

E aqui temos ainda a honrada e última aparição de Vincent Price (um ídolo de Burton que já havia dublado um primeiro curta stop motion do diretor em 82), como o inventor de Edward, que morre antes de finalizá-lo, deixando tesouras tão afiadas quanto as Facas Ginso no lugar das mãos.

Edward Mãos de Tesoura faz parte da série: Filmes dos anos 80 que  você assiste hoje em dia, e produz o mesmo efeito. Ou seja, é uma pintura conceitual e atemporal, passível de discussões ao redor de seu tema de pano de fundo, uma obra de arte daquelas que Burton nunca mais será capaz de construir outra igual. E por mais bizarros que sejam seus personagens posteriores, nenhum se compara a Edward.

O Lutador (2008)

20 abr

“The only place I get hurt is out there.”

A Tragicômica história baseada no livro de Robert Siegel sobre Randy “The Ram” Robinson (Mickey Rourke), um lutador de luta livre, famoso nos anos 80, que com o passar dos anos, foi sendo esquecido pela mídia, apesar de nunca ter deixado de lutar, o que conforme ele afirma, era a única coisa que sabia fazer.

Aronofsky soube trabalhar até mesmo com as cenas de humor negro, com Randy pedindo emprego no mercado, em todas as vezes que pensou em finalmente se aposentar das lutas. Não porque tivesse cansado, mas devido a um ataque cardíaco que teve após uma das lutas, o médico alertou sobre parar de lutar caso não quisesse morrer de vez. Todas as cenas até mais tristes, como a rejeição de sua filha (Evan Rachel Wood) ou ainda o fora da dançarina Cassidy (Marisa Tomei), recebiam a sequência de Randy caminhando na rua. A Câmera de mão mesmo, filmava suas costas e em nenhuma cena triste, Aronofsky se rendia a uma trilha lamuriosa. Pelo contrário, sempre rolando a boa farofada dos anos 80 muito bem selecionada, refletindo na música o espírito de Randy e sua capacidade de ignorar que o tempo passou para ele ou para o mundo daquela época. Um bom exemplo disso, é ele jogando um joguinho tosco de luta (na verdade, um jogo dele mesmo) da Nintendo, enquanto o garoto que jogava com ele comenta sobre Call Of Duty 4 e o quanto aquele jogo que eles estavam jogando é ultrapassado.

Mickey Rourke, que há muito não atuava em mais nada, representa um papel meio irônico, considerando que de um ponto de vista simbólico, temos a representação de sua vida num filme. Sua figura é engraçada por si só, e apesar do visu horrível – loiro oxigenado, com aquele bronze estranho e calças colantes – ele garante simpatia logo nos primeiros minutos do longa. É simpático com todos, mesmo quando arranja emprego de atendente de frios no supermercado. Marisa Tomei por sua vez, executa muito bem seu papel, conseguindo exprimir bem sua postura ora como uma dançarina de uma casa norturna, ora como mãe de dois meninos.

As lutas são interessantes, convence quanto sua veracidade, no companheirismo e respeito entre os lutadores, inclusive ao respeito que tinham pelo próprio Randy. Há algumas cenas mais fortes, principalmente na luta que envolve grampeadores e cacos de vidro. Talvez não chegue a chocar, afinal como tudo é combinado, pouco antes da luta Necro Butcher – o cara dos grampeadores – combina com Randy sobre seu plus a mais no ringue.

Com a possibilidade de repetir a luta contra Aiatolá (Ernest Miller) do qual há 20 anos atrás venceu, Randy se vê numa grande tentação de burlar as prescrições médicas e ir lutar novamente, mesmo sabendo que corria um risco por conta de seu coração. O conceito por trás do filme não consiste em superar suas forças, ainda mais considerando que se trata da velhice chegando e não de almejar algo que Randy nunca conseguiu. Se trata de tentar perpetuar sua habilidade, não por acreditar que pode ir muito mais além, já no fim da linha, mas pelo simples prazer de continuar a fazer aquilo que mais gosta e mais sabe.