
Poster de Nosferatu - uma sinfonia de horror
O expressionismo alemão foi uma corrente estética que se manifestou na pintura, na literatura, e mais tardiamente no cinema. Marcou o cinema da década de 20 imortalizando títulos que traz na luz e sombra a arte e a dramaticidade.
A Alemanha no início do século XX possuía o status de um país industrial bem desenvolvido. Contudo, os primeiros filmes categorizados como expressionistas daquela época, focam-se em uma era mais remota, não refletindo uma realidade urbana do país. Com a derrota da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha começou a entrar numa recessão, foi um período de caos e desordem social. A relação com os filmes que retratavam épocas antigas era como se os alemães, recusando a realidade de ter perdido a Primeira Guerra, se consolassem numa situação anterior, utilizando lendas e contos.
Desta forma, toda a composição concreta, passa a ser abstrata, na função de não buscar o mundo como ele é e sim remodelar este, a partir dos sentimentos interiores do indivíduo, do lúdico e fantástico. Era muito mais interessante recriar um mundo do que a simples representação do que nós conhecemos. A partir daí, se destaca características visuais que determinaram a estética expressionista alemã, do início do século XX: Cenários subjetivos e abstratos, variações de luzes e sombras, cenários claustrofóbicos, e uma névoa soturna, com figuras por vezes grotescas e incomuns.

Cartaz do filme Metropolis
Dois dos filmes expressionistas que são expoentes a se destacar com esta estética cinematográfica, são O Gabinete do Dr. Caligari (1919) e Metropolis (1927). Entretanto, apesar de ambos pertencerem ao Expressionismo, temos aí uma diferença de pouco menos de 10 anos, que reflete a situação do país em cada época, de uma forma bem diferente entre um e outro.
Em O Gabinete do Dr. Caligari, conta a história de um hipnotizador, o Dr Caligari que induz o jovem Cesare a matar pessoas. A história se complica quando este se recusa a matar uma bela jovem. Tudo se passando pela ótica de um louco. Neste filme, dirigido pelo diretor Robert Wiene, os cenários foram construídos sobre telas pintadas, mostrando elementos e formas irregulares e deformadas, além de um cenário subjetivo e lúdico. É distanciado do real, assumindo composições picturais e fantásticas, com sua arquitetura distorcida, casas inclinadas, ruas tortuosas, criando um universo inconsciente do estado psíquico dos homens, ou mesmo do olhar de um louco.

O Gabinete do Dr. Caligari - Cena do filme: o cenário eram telas das quais eram pintadas até mesmo as sombras que eram projetadas dos personagens.
Já em Metropolis (1927), o diretor Fritz Lang realizou uma produção precursora de Ficção Científica, do qual aliou características expressionistas a uma visão do que seria o mundo em 2026. A urbanização, atrelada a dificuldade de se viver na cidade, não no sentido de civilização mas, no distanciamento do rural, na impossibilidade do retorno a natureza, cria uma tensão entre ambas situações, do qual mesmo com a falta do vínculo da natureza, há a atração pelo modo de vida metropolitano e pela tecnologia, a tal ponto que o homem só vive para fazer a máquina “viver”. Essa ideia é bem refletida numa das cenas do relógio da grande máquina, que mostra um operador (no caso Freder, o filho do “dono” de Metropolis, se passando por trabalhador) girando os ponteiros do relógio do qual não pode parar por um segundo sequer.

Metropolis - Freder se passando por um trabalhador, fazendo o relógio girar
Na época, Metropolis foi considerada como a produção mais cara filmada na Europa. Conta uma história que se passa no século XXI, do qual os trabalhadores eram escravizados pelas máquinas. Era uma simbologia da preocupação com a mecanização da vida industrial no estilo de vida metropolitano, questionando a importância do sentimento humano. Metropolis apesar de relações com as características de filmes deste período, ele é diferenciado por seu cenário e roteiro, dos primeiros filmes expressionistas onde se destacava uma história lúdica remota, e por vezes pitorescas, como o próprio O Gabinete do Dr. Caligari (representado pelo terror e ambientação soturna). Ele representa mais a Alemanha industrial, e a exaltação da sociedade urbana.

Metropolis - Maria após a transformação para robô (que o Robocop invejou o modelito décadas depois)
Na linha do O Gabinete do Dr. Caligari, temos outros filmes que possuíam seus aspectos positivos e negativos e marcaram a época. É o caso de Nosferatu – uma Sinfonia de Horrores e Golem. Assim como algumas pinturas que a princípio não são bem absorvidas por quem vê a não ser que considerem a história do pintor ou a época da humanidade, o Expressionismo Alemão traz grandes obras que tem muito mais conceito e arte do que a simples preocupação atual de se parecer real ou megalomaníaco. Como exemplo, só repararmos no cuidado de luz e sombra e suas variações tonais da escala de cinza em filmes como o próprio Nosferatu, ou O Gabinete… Mas, isso é assunto para um próximo post.

O primeiro Stop Motion de Burton, foi um curta metragem de 82, intitulado de Vincent, um garoto que desejava ser como Vincent Price. Curto, porém super conceitual, a animação narrava pelo próprio Price um poema de autoria de Burton sobre suas dores soturnas e seus desejos oriundos de uma mente carregada de dramas e crises existenciais. Alí, você já vê os primeiros detalhes gráficos e elementos visuais que caracterizam a identidade visual da maioria dos trabalhos do diretor: Objetos irregulares, nomes de personagens esquisitos, escalas de cinza, olhos grandes e expressivos com olheiras porém dotado de um carisma formidável.
Contudo, se é para falarmos de obra prima, ou melhor dizendo, se é para citarmos um fundamento, muito mais do que simplesmente composições visuais (até porque é provado que nós amantes de cinema não nos alimentamos só disso) nós temos um dos melhors filmes de Tim Burton, se não um dos melhores filmes já feitos, o clássico e apaixonante Edward Mãos de Tesoura. Aqui Burton faz valer que forma e função andam juntos, dando um sentido muito maior do que o bonito para o contraste do colorido saturado da vizinhança com a figura monocromática e gótica de Edward. Contudo, apesar da bizarrice esdrúxula, Edward tem um bom coração. Aliás, um coração muito maior do que os demais “coloridos”da região. Edward é um filme que traz uma história atemporal, ultrapassando etnias, tempo, cultura. É sobre você ser diferente. E até então, Tim Burton era um deles. E o melhor de tudo é que as poucos, podemos saborear um Burton que mostrava seu talento não somente para o soturno mórbido. Havia bizarrices nas fantasias, nos sonhos, e na nossa capacidade de imaginar. É aí que Peixe Grande se encaixa.
Sweeney Todd foi um bom filme. Não precisou muito esforço na parte conceitual considerando que o filme é um remake de um mal feito antigo e também de uma ópera do mesmo nome. Toda a dramatização do longa já estava lá. O toque final de Burton foi adequar novamente sua estética para o filme, acentuando aqui e ali destaques peculiares, seja no contraste vermelhão do sangue com os tons frios de toda a cena, seja no cômico episódio de Depp com roupas de banho a la Beetlejuice. E ao meu ver, ele acertou muito bem, considero Sweeney Todd, seu último melhor filme, embora ele não carregue um sentido tão profundo quanto Peixe Grande ou Edward.
E com a estréia de Alice, eu senti um luto muito diferente do que nos filmes infelizes do diretor. Porque daí em diante surgiam boatos cada vez mais ridículos como “remake de A Familia Addams”ou a “versão trevosa da bruxa Malévola”. Taí a Disney querendo botar pra f*** e acabar de vez com Burton. Afinal, que coisa chata é essa de dar um toque “buuu” para todos os filmes porque a galera se encanta? Que coisa chata é essa de remake em stop motion de A Familia Addams se a própria história já possui bizarrice por si só numa comédia que chega a ser única? Burton parece estar sobrevivendo de estética batida, seus atores fixos, seu fiel Elfman e suas redundâncias que dessa vez, não constam fundamentos mais. E redundâncias sem fundamentos não tem graça. Seja uma bela composição de Burton, um belo arranjo musical de Dany Elfman, uma perfeita atuação de Helena como quase sempre, sem conceito Burton, a gente enjoa dos seus bichinhos psicodélicos, e a gente lamenta a qualidade que foi deixada lá trás, e reavivemos Edward Mãos de Tesoura assim como reavivemos qualquer outro filme magnífico cujo diretor deixou de produzir novas peças após isso.


















