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Um pouco de Expressionismo Alemão

6 abr

Poster de Nosferatu - uma sinfonia de horror

O expressionismo alemão foi uma corrente estética que se manifestou na pintura, na literatura, e mais tardiamente no cinema. Marcou o cinema da década de 20 imortalizando títulos que traz na luz e sombra a arte e a dramaticidade.

A Alemanha no início do século XX possuía o status de um país industrial bem desenvolvido. Contudo, os primeiros filmes categorizados como expressionistas daquela época, focam-se em uma era mais remota, não refletindo uma realidade urbana do país. Com a derrota da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha começou a entrar numa recessão, foi um período de caos e desordem social. A relação com os filmes que retratavam épocas antigas era como se os alemães, recusando a realidade de ter perdido a Primeira Guerra, se consolassem  numa situação anterior, utilizando lendas e contos.

Desta forma, toda a composição concreta, passa a ser abstrata, na função de não buscar o mundo como ele é e sim remodelar este, a partir dos sentimentos interiores do indivíduo, do lúdico e fantástico. Era muito mais interessante recriar um mundo do que a simples representação do que nós conhecemos. A partir daí, se destaca características visuais que determinaram a estética expressionista alemã, do início do século XX: Cenários subjetivos e abstratos, variações de luzes e sombras, cenários claustrofóbicos, e uma névoa soturna, com figuras por vezes grotescas e incomuns.

Cartaz do filme Metropolis

Dois dos filmes expressionistas que são expoentes a se destacar com esta estética cinematográfica,  são O Gabinete do Dr. Caligari (1919) e Metropolis (1927). Entretanto, apesar de ambos pertencerem ao Expressionismo, temos aí uma diferença de pouco menos de 10 anos, que reflete a situação do país em cada época, de uma forma bem diferente entre um e outro.

Em O Gabinete do Dr. Caligari, conta a história de um hipnotizador, o Dr Caligari que induz o jovem Cesare a matar pessoas. A história se complica quando este se recusa a matar uma bela jovem. Tudo se passando pela ótica de um louco. Neste filme, dirigido pelo diretor Robert Wiene, os cenários foram construídos sobre telas pintadas, mostrando elementos e formas irregulares e deformadas, além de um cenário subjetivo e lúdico. É distanciado do real, assumindo composições picturais e fantásticas, com sua arquitetura distorcida, casas inclinadas, ruas tortuosas, criando um universo inconsciente do estado psíquico dos homens, ou mesmo do olhar de um louco.

O Gabinete do Dr. Caligari - Cena do filme: o cenário eram telas das quais eram pintadas até mesmo as sombras que eram projetadas dos personagens.

 

Já em Metropolis (1927), o diretor Fritz Lang realizou uma produção precursora de Ficção Científica, do qual aliou características expressionistas a uma visão do que seria o mundo em 2026. A urbanização, atrelada a dificuldade de se viver na cidade, não no sentido de civilização mas, no distanciamento do rural, na impossibilidade do retorno a natureza, cria uma tensão entre ambas situações, do qual mesmo com a falta do vínculo da natureza, há a atração pelo modo de vida metropolitano e pela tecnologia, a tal ponto que o homem só vive para fazer a máquina “viver”. Essa ideia é bem refletida numa das cenas do relógio da grande máquina, que mostra um operador (no caso Freder, o filho do “dono” de Metropolis, se passando por trabalhador) girando os ponteiros do relógio do qual não pode parar por um segundo sequer.

Metropolis - Freder se passando por um trabalhador, fazendo o relógio girar

 

Na época, Metropolis foi considerada como a produção mais cara filmada na Europa. Conta uma história que se passa no século XXI, do qual os trabalhadores eram escravizados pelas máquinas. Era uma simbologia da preocupação com a mecanização da vida industrial no estilo de vida metropolitano, questionando a importância do sentimento humano. Metropolis apesar de relações com as características de filmes deste período, ele é diferenciado por seu cenário e roteiro, dos primeiros filmes expressionistas onde se destacava uma história lúdica remota, e por vezes pitorescas, como o próprio O Gabinete do Dr. Caligari (representado pelo terror e ambientação soturna). Ele representa mais a Alemanha industrial, e a exaltação da sociedade urbana.

Metropolis - Maria após a transformação para robô (que o Robocop invejou o modelito décadas depois)

 

Na linha do O Gabinete do Dr. Caligari, temos outros filmes que possuíam seus aspectos positivos e negativos e marcaram a época. É o caso de Nosferatu – uma Sinfonia de Horrores e Golem. Assim como algumas pinturas que a princípio não são bem absorvidas por quem vê a não ser que considerem a história do pintor ou a época da humanidade, o Expressionismo Alemão traz grandes obras que tem muito mais conceito e arte do que a simples preocupação atual de se parecer real ou megalomaníaco. Como exemplo, só repararmos no cuidado de luz e sombra e suas variações tonais da escala de cinza em filmes como o próprio Nosferatu, ou O Gabinete… Mas, isso é assunto para um próximo post.

83ª Edição do Oscar (2011)

28 fev

É claro que a monarquia britânica levaria o Oscar de Melhor Filme. Porém, este ano houve uma distribuição nas premiações, afinal O Discurso do Rei não abocanhou todas as suas indicações e ainda tivemos vitórias dignas. Bem verdade também, que quase tudo foi previsível demais. Segue agora, algumas observações:

  • Christian Bale vence de Geoffrey Rush, porque apesar da excelência de Rush como coadjuvante, ele já teve a sua vez, vez da qual pode mostrar até melhor seu trabalho. Quanto a Christian, pela primeira vez fatura a estatueta, mais que merecida.
  • Colin Firth, este sim eu ficaria decepcionada caso não ganhasse, não importa o resto dos indicados. Independente de nossas considerações mediante a força ou fraqueza do filme, não podemos negar a força do personagem em si, e a atuação convincente de Firth.
  • E eu preciso comentar alguma coisa sobre Natalie Portman? Não, claro…
  • A Rede Social perde seu topo de queridinha como garantiu no Globo de Ouro, contudo não fica esquecida, e este ano tivemos  Trent Reznor e Atticus Ross ganhando a melhor Trilha. Um trabalho muito bem feito de ambos, foge do instrumental orquestrado e emocionante da maioria dos vencedores da categoria, mas o que importa é a Academia reconhecer tal trabalho. Digno.
  • E A Origem nem foi o irmão odiado da vez. Foi mais lembrado que no Globo de Ouro, ganhando prêmios que realmente são compatíveis com o grau de qualidade em cada categoria. Ganhar como Melhor Filme, seria demais, considerando os demais indicados.
  • Alice ganhou naquilo em que prestou. Simples assim. Super justo.
  • Talvez como Melhor Diretor eu possa discordar. Acharia digno Aronofsky levar a estatueta. Entretanto, Portman vencer o prêmio de Melhor Atriz é prova clara de que a Academia não é capaz de ignorar por completo um talento contrastante dentro do cinema. Todos esperavam por isso. Previsibilidade até que não aceitariamos o contrário.
  • Tivemos outros pontos altos na premiação (e super baixos também). Costumo adorar as breves nostalgias da premiação como  a Orquestra abrindo a premiação da categoria de Trilha Sonora com o poderoso instrumental de Star Wars ou ainda o encerramento da festa com Somewhere Over the Rainbow pelo coral de estudantes das escolas de NY.
  • Anne Hathaway e James Franco apresentaram toda a premiação, e confesso que já me diverti mais nos anos anteriores. Franco estava duro, tendo dado seu ultimato epic fail quando entrou no palco de Marilyn Monroe. Hathaway demonstrou um pouco mais de soltura, quem sabe com outro par a apresentação teria mais êxito.
  • Se temos um esquecido “injustiçado” aqui na história, é Bravura Indômita.

Abaixo, a lista completa:

Melhor fime:

“O Discurso do Rei”

Melhor diretor:

Tom Hooper, por “O Discurso do Rei”

Melhor ator:

Colin Firth, por “O Discurso do Rei”

Melhor atriz:

Natalie Portman, por “Cisne Negro”

Melhor ator coadjuvante:

Christian Bale, por “O Lutador”

Melhor atriz coadjuvante:

Melissa Leo, por “O Lutador”

Melhor roteiro original:

“O Discurso do Rei”

Melhor roteiro adaptado:

“A Rede Social”

Melhor filme estrangeiro:

“Em Um Mundo Melhor”, Dinamarca

Melhor trilha sonora:

Trent Reznor e Atticus Ross em “A Rede Social”

Melhor canção original:

“Toy Story 3″, com “We Belong Together”

Melhor fotografia:

“A Origem”

Melhor montagem:

“A Rede Social”

Melhor direção de arte:

“Alice no País das Maravilhas”

Melhor figurino:

“Alice no País das Maravilhas”

Melhores efeitos especiais:

“A Origem”

Melhor animação em longa-metragem:

“Toy Story 3″

Melhor animação em curta-metragem:

“The Lost Thing”

Melhor mixagem de som:

“A Origem”

Melhor edição de som:

“A Origem”

Melhor maquiagem:

“O Lobisomem”

Melhor curta-metragem:

“God of Love”

Melhor documentário em curta-metragem:

“Strangers No More”

Melhor documentário:

“Trabalho Interno”

A ausência de Burton

23 dez

Não diria talvez “a ausência do ‘verdadeiro’ Burton”. Verdadeiro pode ser relativo…Podemos definir como “o talentoso” Burton, ou o Burton que nos deu grandes filmes. Mas, alto lá você que começa a ler este texto! Este não é sobretudo um post que fala o quão Tim Burton tem errado nos filmes, ou o quão o diretor caiu na mão do mainstream, ou o quanto eu gosto ou desgosto do diretor. Antes de alimentarmos discórdia talvez por incompatibilidade de opniões em excesso, deixe-me esclarecer que até alguns anos atrás, Tim Burton era mais que um grande diretor para mim. Era um ícone que eu tinha como referências para muitas coisas, da mesma forma em que o diretor utiliza o Expressionismo Alemão ou Edgar Allan Poe para suas referências. Se falo aqui um texto demasiado polêmico, falo como uma pessoa que admira o trabalho do diretor e questiona certos trabalhos dele, bem como sua posição atual, e não engulo a máxima de que Burton é a perfeição do cinema, seja fazendo um Edward Mãos de Tesoura ou um Alice no País das Maravilhas. Eu, Natália, comparo sim, e eu Natália, sendo fã de Tim Burton, não nego que este último filme é um verdadeiro lixo. E sim, vou exorcizar meus demônios neste post, agora…

O primeiro Stop Motion de Burton, foi um curta metragem de 82, intitulado de Vincent, um garoto que desejava ser como Vincent Price. Curto, porém super conceitual, a animação narrava pelo próprio Price um poema de autoria de Burton sobre suas dores soturnas e seus desejos oriundos de uma mente carregada de dramas e crises existenciais. Alí, você já vê os primeiros detalhes gráficos e elementos visuais que caracterizam a identidade visual da maioria dos trabalhos do diretor: Objetos irregulares, nomes de personagens esquisitos, escalas de cinza, olhos grandes e expressivos com olheiras porém dotado de um carisma formidável.

Não demorou muito para Tim ser conhecido, ainda na mesma década, Beetlejuice e Batman enfatizam bem sua estética de tal modo que com o Stop Motion de 93, O Estranho Mundo de Jack, dirigido por Henry Selleck até hoje é confundido por leigos que acreditam ser do próprio Burton a direção por apresentar os padrões de bizarrice e carismas iguais.

Contudo, se é para falarmos de obra prima, ou melhor dizendo, se é para citarmos um fundamento, muito mais do que simplesmente composições visuais (até porque é provado que nós amantes de cinema não nos alimentamos só disso) nós temos um dos melhors filmes de Tim Burton, se não um dos melhores filmes já feitos, o clássico e apaixonante Edward Mãos de Tesoura. Aqui Burton faz valer que forma e função andam juntos, dando um sentido muito maior do que o bonito para o contraste do colorido saturado da vizinhança com a figura monocromática e gótica de Edward. Contudo, apesar da bizarrice esdrúxula, Edward tem um bom coração. Aliás, um coração muito maior do que os demais “coloridos”da região. Edward é um filme que traz uma história atemporal, ultrapassando etnias, tempo, cultura. É sobre você ser diferente. E até então, Tim Burton era um deles. E o melhor de tudo é que as poucos, podemos saborear um Burton que mostrava seu talento não somente para o soturno mórbido. Havia bizarrices nas fantasias, nos sonhos, e na nossa capacidade de imaginar. É aí que Peixe Grande se encaixa.

Enfim, a carreira de Tim foi marcada com muito altos e baixos em suas três décadas de atuação. Mas, afinal, porque não perdoarmos quando um diretor comete erros, não? Muitos outros diretores já passaram por empreitadas infelizes, nem por isso foi-lhes tirado o mérito como bons profissionais que são. Mas, vamos com calma… Minha indagação consiste mais no que passa pela cabeça do grande Burton atualmente, do qua na dúvida sobre irá ele errar ou não o próximo. Afinal, isso nada mais é do que consequencia da primeira questão…

Sweeney Todd foi um bom filme. Não precisou muito esforço na parte conceitual considerando que o filme é um remake de um mal feito antigo e também de uma ópera do mesmo nome. Toda a dramatização do longa já estava lá. O toque final de Burton foi adequar novamente sua estética para o filme, acentuando aqui e ali destaques peculiares, seja no contraste vermelhão do sangue com os tons frios de toda a cena, seja no cômico episódio de Depp com roupas de banho a la Beetlejuice. E ao meu ver, ele acertou muito bem, considero Sweeney Todd, seu último melhor filme, embora ele não carregue um sentido tão profundo quanto Peixe Grande ou Edward.

Mas foi a partir daí quando Tim voltou com tudo para a Disney que o negócio começou a feder. Nada contra a Disney, mas a fantasia da Disney com a fantasia de Burton não se convergem: o resultado disso é uma história boba carregada de uma fotografia e uma “carcaça visual” tão rica em detalhes e imagens que Burton passa a atrair mais as crianças dos olhos brilhantes, que os amantes de suas histórias estapafúrdias.  Foi o que aconteceu com Alice no País das Maravilhas: o Mainstream caiu matando, ficou aquele vuco vuco todo, com todo mundo aguardando fervorosamente a estréia (inclusive eu) e como em muitos outros casos em que alimentamos muita expectativa, veio uma enorme decepção. Aliás, quando me refiro a uma “história boba”, não me refiro ao clássico irretocável de  Lewis Carroll, e sim ao roteiro mal conduzido e com final xoxo desta adaptação, onde nem os personagens por mais talentosos que sejam conseguem fazer milagres. Você via os coloridos fortes de Edward mãos de Tesoura, você via a música trevosa de Danny Elfman, a brilhante Helena Bonham-Carter, os trejeitos carismáticos de Johnny Depp. De resto, era só um vazio. Você não via Burton ali, porque bichinhos bizarros e coloridos, você pode ver em “Avatar” se sentir necessidade, o que queriamos ver de Burton era muito mais além da imagem.

E com a estréia de Alice, eu senti um luto muito diferente do que nos filmes infelizes do diretor. Porque daí em diante surgiam boatos cada vez mais ridículos como “remake de A Familia Addams”ou a “versão trevosa da bruxa Malévola”. Taí a Disney querendo botar pra f*** e acabar de vez com Burton. Afinal, que coisa chata é essa de dar um toque “buuu” para todos os filmes porque a galera se encanta? Que coisa chata é essa de remake em stop motion de A Familia Addams se a própria história já possui bizarrice por si só numa comédia que chega a ser única? Burton parece estar sobrevivendo de estética batida, seus atores fixos, seu fiel Elfman e suas redundâncias que dessa vez, não constam fundamentos mais. E redundâncias sem fundamentos não tem graça. Seja uma bela composição de Burton, um belo arranjo musical de Dany Elfman, uma perfeita atuação de Helena como quase sempre, sem conceito Burton, a gente enjoa dos seus bichinhos psicodélicos, e a gente lamenta a qualidade que foi deixada lá trás, e reavivemos Edward Mãos de Tesoura assim como reavivemos qualquer outro filme magnífico cujo diretor deixou de produzir novas peças após isso.

E perdoem-me o drama que fiz nesse texto todo, mas enfim. Haverá outra peça rara de Burton daqui pra frente? Vocês acreditam nisso?