Arquivos | abril, 2011

A Malvada (1950)

29 abr

“Nice speech, Eve. But I wouldn’t worry too much about your heart. You can always put that award where your heart ought to be.”

De diálogos afiados, a grande maioria pela fantástica Bette Davis que o que falta de beleza em seu rosto, sobra de talento em todos os papéis que faz. Aqui, ela é Margo Channing, uma grande atriz do teatro, arrogante e cheia de deboches. Mantém um relacionamento com Bill, diretor da maioria de suas peças (Gary Merrill), e também amiga do roteirista com sua mulher Lloyd e Karen (Hugh Marlowe e Celeste Holm).

Mas, não é assim que começa a história…

Há um diálogo bem construído logo no início com a voz de DeWitt (crítico teatral, interpretado por George Sanders), intercalando por vezes com comentários de Karen, sobre uma grande premiação que estava a acontecer naquela noite. O prêmio de melhor Revelação então é anunciado para Eve Harrington (Anne Baxter). A câmera então congela nesta cena para podermos voltar ao passado e sabermos Tudo sobre Eve (exatamente o título original do filme). Eve, uma personagem criada cuidadosamente, cujo até mesmo o nome não foi colocado em vão. Eve, é a biscate da vez, e sim, pronto falei. Aquela que passamos o filme todo desejando alguém puxar os cabelos dela até ficar igual a cabeça do Cebolinha. Engraçado que quando temos Bette Davis no papel, soa tão contraditório termos um personagem mais cruel do que Bette pode ser. Mas, convenhamos… se fosse Bette a ovelha negra da história, ela daria um jeito de nos cativar. Se tem atriz mais bruaca e apaixonante ao mesmo tempo em seus papéis, essa foi Davis.

Mas, voltemos ao foco, até porque Anne Baxter não falha em sua atuação. Eve entra em cena no flashback como uma maltrapilha (como polidamente descreve Margo logo em sua primeira cena) que na maior humildade, passa a ficar sempre do lado de fora dos teatros, idolatrando Margo como uma admirável mulher e atriz. Logo, Karen se comove com a garota e convida esta a realizar seu “sonho” de conhecer Margo. Não demora muito para Eve ser uma espécie de faz de tudo para Margo e desta forma conquistando posições mais relevantes no mundo das celebridades.

O interessante aqui é que o diretor Joseph L. Mankiewicz não se preocupou em nenhum momento em mostrar alguma das duas mulheres atuando no teatro. A mensagem é mostrar como o foco de celebridades pode ser tão volúvel, o que uma mulher pode fazer para conseguir o que deseja, e outros detalhes metafóricos como interpretações, máscaras, farsas e subornos. Todos personagens possuem uma qualidade peculiar, e Addison DeWitt o crítico teatral que parece não ter destaque em boa parte do filme, é responsável por um diálogo avassalador contra Eve, num drama e terror psicológico para a garota. Ele foi o vencedor da noite do Oscar em que ganhou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante pelo papel. E não vamos esquecer jamais, que aqui temos um dos primeiros papéis de destaque para a belíssima Marilyn Monroe fazendo o papel de Miss Casswell, mais uma das atrizes que se vende aos grandes dramaturgos para ter fama e sucesso. Sua voz doce e seu olhar chama atenção mesmo nos pequenos takes que participa.

Bette Davis acaba saindo de foco nos últimos minutos do filme, mas todas suas falas foram bem construídas, deixando uma personagem homogênea com alfinetadas que atraem mais o espectador a medida que Eve vai mostrando sua faceta de malvada. Sem dúvida o filme não seria o mesmo se até Claudette Colbert atuasse no lugar de Davis, como foi cogitado na época das filmagens. Indicado a 14 Oscar, maior número de indicações junto com a novelinha de James Cameron anos mais tarde – e vencedor de Melhor Filme – A Malvada é um teatro a parte.

O Rei Leão (1994)

25 abr

“So whenever you feel alone, just remember that those kings will always be there to guide you. And so will I.”

Uma das primeiras animações a retratar animais  como protagonistas. Mesmo posterior ao Bambi, deu vazão para diversas outras animações e tantos outros personagens da Disney ou não. Foi a primeira animação a mostrar a morte de forma clara. Mufasa morre, Simba lamenta, e apesar do Rei aparecer como vozes do além a la Cid Moreira, ele está morto da silva…

Com algumas leves inspirações de Hamlet, a tragédia shakesperiana, O Rei Leão envolveu adultos e crianças para um desenho atemporal, onde mesmo com os avanços dos gráficos, 3D e demais tecnologias das produções, continua com o poder de brotar lágrimas, seja na trilha forte de Hans Zimmer, ou na simples ação de Rafiki (o macaco que fazia umas mandingas) erguendo o herdeiro do trono na ponta da pedra.

Mas, nem mesmo Simba marca tanto a animação quanto a dupla dinâmica e engraçada do Suricata e do Javali, ou melhor dizendo, Timão e Pumba, que inclusive derivou a série animada um ano depois. A musiquinha lema dos dois, Hakuna Matata é um pequeno ensinamento sobre deixar nosso passado de lado e viver longe das preocupações. Lição que ensinam o Leão Simba quando este vai parar na floresta após a morte do Rei Mufasa.

Assistir O Rei Leão 15 anos depois de seu lançamento é engraçado. Para muitos que passaram sua infância marcada por longas como este ou Toy Story, soa esquisito afirmar que 15 anos se passaram e você percebe com muito mais nitidez a simplicidade dos cenários ou o azul saturado do céu (Ah sim, você percebe também que envelheceu, mas isso é uma conclusão óbvia…). A nova capa para Blu-Ray omite esta falta, com uma grande capa rica em detalhes e caprichos de cenários.

Apesar da tia da vizinhança afirmar para sua mãe que contém cenas satânicas no filme, ou ainda referências ao homossexualismo e libertinagem, o fato é que O Rei Leão se tornou uma das grandes animações da Disney, e sua história, apesar de simples (como toda a animação com tal foco deve ser) é cativante e sensível.

Não acredito que para alguém que não assistiu o filme na época, possa se atrair tanto pela animação. Ainda mais porque temos tantas outras fodásticas que se compararmos deixa o clássico O Rei Leão pra trás…Entretanto, ele deve ser respeitado assim como uma pintura pós moderna, pela linguagem que se apresentou inovadora para a época. O Rei Leão 2 ainda causou grande impacto na época também, tendo acabando de vez com a aventura de Simba no terceiro e último filme que chegou ao ponto do Deu o que tinha que dar. Mas, eu sou daquelas velhas conservadoras que afirma que bom mesmo é o primeiro.

O Lutador (2008)

20 abr

“The only place I get hurt is out there.”

A Tragicômica história baseada no livro de Robert Siegel sobre Randy “The Ram” Robinson (Mickey Rourke), um lutador de luta livre, famoso nos anos 80, que com o passar dos anos, foi sendo esquecido pela mídia, apesar de nunca ter deixado de lutar, o que conforme ele afirma, era a única coisa que sabia fazer.

Aronofsky soube trabalhar até mesmo com as cenas de humor negro, com Randy pedindo emprego no mercado, em todas as vezes que pensou em finalmente se aposentar das lutas. Não porque tivesse cansado, mas devido a um ataque cardíaco que teve após uma das lutas, o médico alertou sobre parar de lutar caso não quisesse morrer de vez. Todas as cenas até mais tristes, como a rejeição de sua filha (Evan Rachel Wood) ou ainda o fora da dançarina Cassidy (Marisa Tomei), recebiam a sequência de Randy caminhando na rua. A Câmera de mão mesmo, filmava suas costas e em nenhuma cena triste, Aronofsky se rendia a uma trilha lamuriosa. Pelo contrário, sempre rolando a boa farofada dos anos 80 muito bem selecionada, refletindo na música o espírito de Randy e sua capacidade de ignorar que o tempo passou para ele ou para o mundo daquela época. Um bom exemplo disso, é ele jogando um joguinho tosco de luta (na verdade, um jogo dele mesmo) da Nintendo, enquanto o garoto que jogava com ele comenta sobre Call Of Duty 4 e o quanto aquele jogo que eles estavam jogando é ultrapassado.

Mickey Rourke, que há muito não atuava em mais nada, representa um papel meio irônico, considerando que de um ponto de vista simbólico, temos a representação de sua vida num filme. Sua figura é engraçada por si só, e apesar do visu horrível – loiro oxigenado, com aquele bronze estranho e calças colantes – ele garante simpatia logo nos primeiros minutos do longa. É simpático com todos, mesmo quando arranja emprego de atendente de frios no supermercado. Marisa Tomei por sua vez, executa muito bem seu papel, conseguindo exprimir bem sua postura ora como uma dançarina de uma casa norturna, ora como mãe de dois meninos.

As lutas são interessantes, convence quanto sua veracidade, no companheirismo e respeito entre os lutadores, inclusive ao respeito que tinham pelo próprio Randy. Há algumas cenas mais fortes, principalmente na luta que envolve grampeadores e cacos de vidro. Talvez não chegue a chocar, afinal como tudo é combinado, pouco antes da luta Necro Butcher – o cara dos grampeadores – combina com Randy sobre seu plus a mais no ringue.

Com a possibilidade de repetir a luta contra Aiatolá (Ernest Miller) do qual há 20 anos atrás venceu, Randy se vê numa grande tentação de burlar as prescrições médicas e ir lutar novamente, mesmo sabendo que corria um risco por conta de seu coração. O conceito por trás do filme não consiste em superar suas forças, ainda mais considerando que se trata da velhice chegando e não de almejar algo que Randy nunca conseguiu. Se trata de tentar perpetuar sua habilidade, não por acreditar que pode ir muito mais além, já no fim da linha, mas pelo simples prazer de continuar a fazer aquilo que mais gosta e mais sabe.