Arquivos | março, 2011

Cinema Paradiso (1988)

31 mar

“No, Toto. Nobody said it. This time it’s all me. Life isn’t like in the movies. Life… is much harder.”

O que todo mundo que já assistiu o filme diz, é o seguinte: prepare os lenços. Tá bom, peguei minha caixa de lencinhos e fui finalmente assistir este clássico italiano (que inclusive venceu diversos prêmios na época, incluindo o de Melhor Filme de Lingua Estrangeira, no Oscar de 90).

Salvatore  quando garoto (Salvatore Cascio) era coroinha da igreja, e sempre que podia se enfiava no meio do Cinema Paradiso para ver as sessões que o padre costumava assistir antes de todo mundo, a fim de censusar algumas partes, como as com cenas de beijo. Era a década de 40, uma época em que levava muitas pessoas no cinema, sendo a maior diversão daquela cidade da Itália – Giancaldo. No Cinema Paradiso, trabalhava o projecionista Alfredo (Philippe Noiret) responsável por fazer os cortes das cenas “pecaminosas” e Totó (como assim era chamado o pequeno Salvatore) vivia lhe pentelhando por ser fascinado pelo cinema.

Todo o resto da trama, perde a graça se eu ir um pouco mais além. Então vamos aos detalhes gerais…

Totó aparece em três fases da vida. Quando mais velho – (Jacques Perrin De O Pacto dos Lobos), aparece logo no começo por conta de o que vermos no filme ser 90% por conta de suas lembranças, digamos assim. Ele era um grande cineasta, já vivia em Roma, há 30 anos longe da família, e após receber a notícia de que um tal Alfredo morreu, sua feição muda e começa então os flashbacks que dão sentido para o começo. Já quando adolescente, é interpretado pelo jovem Marco Leonardi, sem tantos destaques, mas cumprindo um bom papel. Contudo, certamente o que mais destaca dos 3 Totós é o pequeno Salvatore Cascio. Ele é a primeira figura simpática que encanta o espectador logo de cara. Um sujeitinho espuleta, esperto que busca no Cinema Paradiso o melhor lugar para estar. A Guerra tinha acabado, e seu pai jamais havia voltado da Rússia. Totó então vivia com sua mãe que chorava ou batia no garoto por conta de suas travessuras, e a irmã que não fede nem cheira no filme todo…

O segundo destaque é a figura simpática de Alfredo que apesar de se mostrar bravo e rabugento com Totó fuçando em suas películas, logo é estabelecido uma amizade entre ambos que dá toda a essência da história. Cenas cômicas surgem na primeira metade do filme, jamais parecendo forçado. Acho a Itália mestre em fazer humor com elegância e inteligência, mesmo que por vezes as coisas sejam mais fáceis por conta de uma criança.

Interessante notarmos que o filme nos mostra 3 épocas de vida. Nas duas primeiras, se mantém uma trilha sonora digna de um filme mudo antigo dos anos 40. Uma sensibilidade geniosa eu diria. Só então, na terceira época (o que corresponde aos dias de hoje) a música muda o tom, deixa tudo menos “pianinho Chaplin” e mais melancólica e nostálgica.

E quando o filme está próximo aos 5 minutos finais que antecedem os créditos, a sensação que dá é de uma linda e tocante história. Há momentos de emoção, mas nada daquilo que todo mundo falava. E você nem imagina que em 5 minutos aconteça algo que faça você mudar completamente seu estado. E então, com Totó já de volta a Roma, numa cinzenta década de 80, sem mais a graça nostálgica da década de 40 e 50, um pequeno trecho te derruba da cadeira, dando o inesperado (talvez já esquecido) e aí sim, um final de soluçar. Então não serei a única que dirá o diferente. Logo, prepare os lenços…

Cinema Paradiso é para amantes do cinema. Você chora mais ainda, se ama o cinema como Totó amava. Ver o Cinema Paradiso, a grande casa que transportava sonhos e imagens de uma vida que não a sua, ser demolido para um estacionamento porque as pessoas não iam mais o cinema, corta o coração dos “Totós” que temos em nós.

As pontes de Madison (1995)

28 mar

“This kind of certainty comes but once in a lifetime.”

Cara leitora, se você é uma senhora de meia idade, com todos seus filhos criados e um marido que arrota Skol no sofá com a barriga peluda pra cima enquanto assiste uma partida do Curintia, você irá amar essa válvula de escape, dirigida por Clint Eastwood. Mesmo que o ator galã aqui, já esteve em melhor forma algumas décadas anteriores.

Agora você, urso barrigudão que espera “a janta” no sofá vendo o futibol-arte e nem sabe se sua mulher cortou o cabelo hoje e sua única preocupação é o gol impedido ou se vai emendar o próximo feriado ou não, bom, você irá talvez odiar o filme e achar tudo um absurdo.

Este é um resumo claro dos dois tipos de pessoas e suas respectivas percepções com o drama. Claro, temos a terceira camada: a galera que pode assistir de forma neutra, não levar para o lado pessoal, analisar a história e se sensibilizar com um romance doce e expressivo como este.

Dirigido por Eastwood, do romance de Robert Waller, com o roteiro de Richard LaGravenese (que também é responsável pelo roteiro e direção de outro romance de sangrar: PS Eu te Amo), conta a história de uma imigrante italiana, Francesca (interpretado pela DIVA Meryl Streep) que se casa, tem dois filhos e mora numa fazenda em Iowa, com uma vida pacata e estável. Quando seu marido e filhos vão viajar, estando fora por quatro dias, aparece logo no primeiro dia, um fotógrafo – Robert Kincaid (Clint Eastwood) da National Geographic perguntando a Francesca sobre uma ponte que possui uma linda paisagem. Esta, cansada de assistir Ana Maria Braga ou fazer crochê, resolve acompanhar Robert até o local, e eis que se inicia um romance cujo início foi muito bem estruturado, sem precipitações, ocorrendo as cenas na hora certa e exprimindo da atuação de Streep toda sua competência, que consegue convencer em sua angústia e ânsia em demonstrar sua atração pelo fotógrafo ao mesmo tempo em que se segura através de seu receio e sua imagem daquilo que pode ser certo ou errado.

A grande falha na história (que também consta no livro) é os irmãos que estão lendo a narrativa de Francesca logo no começo do filme. Apesar deles darem todo o sentido da mensagem da história com o final (de um modo que atenua a sensação de Francesca estar cometendo um adultério que pode ser julgado por quem assiste logo no começo) eles estragam o romance tanto pela atuação quanto pelas rupturas das cenas de romance quando a história volta pra realidade e mostra diálogos idiotas entre os irmãos. Se Eastwood deixasse a duplinha apenas no começo e no fim, dando-nos uma linearidade maior no romance e até mesmo excluindo certos comentários desnecessários de Francesca, a desenvoltura do filme teria mais êxito.

A parte disso, temos um filme sensível que expressa o amor de ambos personagens e deixa claro os desejos e limitações de Francesca até mesmo em detalhes simples como deixar o cabelo solto quando ao lado de Robert, ou um coque tímido e comportado quando volta a ser a esposa e mãe. É um filme que frisa além do que é certo ou errado, da apologia ou não a traição, ou se a pança de Eastwood é mais sexy do que a de Richard (Jim Haynie) o marido de Francesca. E além disto, estão questões levantadas mesmo que subjetivas no filme como ser feliz ignorando comentários de terceiros, abdicar esta sua própria felicidade por conta de outras pessoas (como seus filhos), viver um mundo inteiro dentro do universo de alguém que se descobre amar ou viver somente seu pequeno mundo compactuando o comodismo ao lado de sua família, vivendo seus dias numa mesmice que pode se contentar ou não. Francesca não se contentou, mas não abriu mão mesmo assim de sua vida considerando suas razões que se mostram claras e coerentes. Robert, apesar de compreender ainda insiste na esperança de estender para a eternidade os quatro dias bons que teve ao lado de Francesca. Este impasse é bem representado na cena dramática de Francesca no carro de seu marido, atrás da caminhonete de Robert que para no semáforo verde, esperando a resposta da amante.

 

As Pontes de Madison não existe para ser criticado ou analisado sobre o quão errado ou quão certo Francesca está. Ou sobre as decisões finais dela, ou sobre trair ou não, largar ou não, abdicar ou não. Ele existe para ser apreciado, olhar para si e repensar em sua vida, ainda mais quando se tem alguém do lado. Esta mensagem é transparente quando se conclui com os filhos de Francesca tomando suas decisões e reavaliando seus casos amorosos. No mais, ele existe para caracterizar no cinema um romance com bela fotografia, bela paisagem, belo jazz e a nossa eterna capacidade de escolha.

Assassinos por natureza (1994)

23 mar

“Eeny, meeny, miny, mo, catch a tiger by the toe.
If he hollers let him go, eeny, meeny, miny, mo”

Assassinos por Natureza consegue ser escarnecedor do começo ao fim. Com roteiro de Quentin Tarantino e uma direção peculiar de Oliver Stone, toda a história que tange o casal Mallory e Mickey transborda sangue de uma maneira fria, porém com forte grau de entretenimento. O trabalho de Stone é autoral, foge muito de um padrão de edição comum Holywoodiano e não deixa a desejar. Pulando de técnica em técnica, ilustrações, imperfeições da câmera como filmes antigos, preto e branco, closes repetidos em rostos maliciosos, o começo do filme pode parecer um Saturday Night Live que não te deixa piscar.

Mickey (Woody Harrelson) e Mallory (Juliette Lewis) é um casal de assassinos, que aparentemente matam pelo simples prazer de matar. Stone demonstra facilmente esta característica do casal nos segundos iniciais do filme, com Leonard Cohen tocando ao fundo e animais selvagens sendo focados, alternando do preto e branco para o colorido. Bem mais pra frente do filme, o índio que surge na história conta sobre uma senhora que salvou uma cobra e esta mordeu ela quando se recuperou. Dá completo sentido para o final do filme e acentua tudo o que já foi visto anteriormente.

Mas, pode o filme estar colocando uma carcaça de Cool sobre os assassinos? Fãs do casal (no filme) torcem por Mickey e Mallory, como se fossem heróis. E a vida de ambos são refletidas talvez como uma justificativa da atitude e comportamento dos psicopatas. De Mallory, o foco foi maior, e representa a melhor cena do filme todo: Uma sátira de programas de TV antigos, com uma família tipicamente americana soltando piadinhas também tipicamente americanas e risadas de diversão soando ao fundo. Mas, o que nos é passado na cena e nas falas dos personagens (os pais de Mallory) estão longe de ser algo a la Married With The Children. Você não ri, acha até absurdo demais quando entende a lascividade nos olhos do pai de Mallory para cima da própria filha. A risada ao fundo dos espectadores do seriado passa a ser incoerente. Este é o cúmulo do escárnio, pois claramente percebemos isso, assim como o mundo costuma rir de tanta coisa ridícula e errada por aí. Haverá alguém assistindo com repulsa enquanto nos desatamos a rir de nós mesmos? Eis a reflexão.

Voltemos a analisar o foco do filme: “Mallory e Mickey sabem a diferença entre o certo e o errado, apenas não dão a mínima para isso”. Oliver Stone não faz você endeusar dois seres como Mallory e Mickey. É muito comum ver críticas em cima de filmes assim (que podem causar a impressão de apologias de qualquer coisa errada, como é Trainspotting com as drogas). Entretanto, considerando a montagem de toda a história, e a excessiva inclusão da mídia durante o filme todo, se torna quase evidente que Oliver Stone dá um tapa na cara da própria mídia e no mundo, com essa curiosidade excessiva que todos constumam ter sobre a mente psicótica. Vide Charles Manson, muito citado no longa. É muito fácil apontarem um filme mais como uma inconsciente apologia a violência, a partir do momento que entendemos que é uma crítica social, parece mais fácil (no caso para aqueles que apontam o dedo) acreditar do contrário. Afinal, o cômodo é sempre mais prático.

Mas, Stone toma cuidado de deixar todos os elementos, e até mesmo a atuação do elenco de uma forma sarcástica, para reforçarmos a idéia de escárnio contra a imprensa. Tanto, que um dos detalhes que acreditei negativos no filme, podem ser uma das justificativas para isto: O personagem do apresentador do programa, interpretado pelo Robert Downey Jr e até mesmo Tommy Lee Jones, parecem ser caricatos demais, ainda mais com suas histerias winehóusticas quando as coisas saem dos eixos. Chegamos a nos sentir como se estivéssemos assistindo aquelas aventurinhas bobas da televisão.

Outro ponto que dá uma ruptura incômoda no filme, é a passagem da primeira parte, que conta do “romance” do casal alternando com flashbacks de ambos para então a segunda parte que [COMEÇO DO SPOILER] mostra um tempo real sobre como o casal é preso. A segunda parte é bem interessante, mas no final da primeira, temos a impressão passageira de um final de filme. Aí a cena de Mallory enfraquecida pela picada da cobra se arrasta. De qualquer forma, o filme volta a ganhar força mais ou menos na parte da entrevista de Wayne (Robert Downey Jr.) com Mickey. [/FINAL DO SPOILER]

Em relação a atuação de Woody Harrelson e Juliette Lewis, não temos muito o que reclamar: Harrelson que já tem uma feição meio de problemático mascando chiclete com sorrisinho lateral (que manteve a faceta em Zumbilândia) se mostra bem qualificado, ainda mais para interpretar um piscopata. Juliette Lewis tem aquela fala enrolada (que também mantém em Simples Como Amar onde tem problemas mentais – só que não mata) e representa bem seus ataques, surtos, e também uma faceta meio tímida e triste em certos momentos. Já Robert Downey Jr. tem um papel medíocre, então dentro de suas limitações, também não deixa a desejar.

No mais, a linda voz de Leonard Cohen soando ao fundo. Espetáculo.