Arquivos | janeiro, 2011

♫ The Temptations – My Girl

31 jan

Lançada em 1964, a música já era famosa antes mesmo de ter sido atrelada num filme. Mas, foi em 1991 com a música sendo tema principal de Meu Primeiro Amor, que muitas crianças da nova geração “conheceram” as músicas dos anos 60, 70 incluindo The Temptations. Uma, é a clássica Do Wah Diddy Diddy (traduzida aqui como “Dubidu” para a versão dublada do filme) e a outra é esta da Trilha da semana: My Girl, que também é o título original do longa.

E atirem a primeira pedra quem nunca assistiu (nem sequer um trecho) deste filme (versão brasileira “ÉrbertiRixardis”) na Sessão da Tarde! Ou a menina que também se apaixonou pelo professor embora achasse Macaulay Culkin bonitinho – numa fase em que o garoto não cheirava nem cola ainda. Ou ainda, qualquer pessoa que tenha chorado pela morte estúpida deste ou a rebeldia de Vada quando soube da tragédia. Opa, falei um spoiler. Desculpa gente, sou muito contra spoilers mas certas coisas deixaram de ser spoilers e se for spoiler pra você, meus pêsames (idem aqueles que não sabem que Darth Vader é o pai de Luke).

Bla bla bla a parte, vamos a música? Adoro coisa antiga gente, acho esse vídeo sensacional, com os rapazes do Temptations cantando e fazendo uma dancinha barrrrbara  =) – reparem nos pézinhos ou a interpretação do trecho “when its cold outside”…

E o trecho abaixo ainda… não dá impressão que o roteiro foi feito em cima da música? o.O

♫ I’ve got so much honey
The bees envy me
I’ve got a sweeter song
Than the birds in the trees ♪

 

Johnny & June (2005)

28 jan

“Cause I got to tell you, my hat’s off to you now, ‘cuz I ain’t never had to drink this yellow water you got here at Folsom!”

Cinebiografias de astros do rock possui um excessivo clichê, que pode ser uma desculpa fácil de se aceitar, considerando que a história se baseia na vida real, e que a vida real destes músicos podem sim ter todo esse clichê. Afinal, todos tinham acessos de raiva, vícios em pílulas ou outras drogas, bebida excessiva e até uma história de amor. No caso de Johnny Cash, o diretor James Mangold decidiu abusar um pouco mais deste último para quem sabe fugir da mesmice. Não acredito que deu muito certo, afinal tem muita mesmice que se bem trabalhada, dá um resultado ótimo, afinal a gente gosta do clichê. E a gente sabe que foi real uma grande parcela de cada história e que os próprios músicos fizeram de suas vidas um clichê. Mas, veja porém Ray, um filme que tem os elementos de outras cinebiografias mas que atingiu resultados muito superiores. E não estamos dizendo que a vida de Ray tem conteúdo mais interessante do que a do Sr. Cash. Ambos tem suas peculiaridades, e Johnny é uma lenda cuja história pode ser muito interessante. Se este filme passou por adquirir uma carcaça de comédia romântica foi culpa do diretor, jamais do personagem principal.

Aqui no Brasil, o apelo amoroso foi mais forte, afinal substituiram a arte do cartaz original, por uma foto do casal, e traduziram o título original (Walk the Line, que nada mais é que um título de uma das músicas do cantor e também uma ironia pro filme todo) para “Johnny & June” como se fosse mais uma história de amor do que a história de Johnny Cash até ele conseguir se recuperar do vício de pílulas e até gravar um álbum num presídio. Bem verdade que a história deste casal foi uma das mais interessantes do mundo do rock que deu início na década de 50, e por mais turbulento que seu começo tenha sido, ele termina de uma forma bonita, levando a gente a crer (ainda mais considerando ser real) que deve existir mesmo essa coisa que uma pessoa é destinada para outra. Afinal, Cash tinha filhas e uma esposa, mas sempre tratou June como sua musa, e após ter finalmente “entrado na linha” mesmo com altos e baixos, ele vive com June por um bom tempo, morrendo quatro meses depois dela.

Contudo, se tem uma coisa que ninguém pode negar é o impactante talento do casal June (Reese Witherspoon) e Johnny (Joaquin Phoenix). Aliás este último tem um destaque maior ainda, representando trejeitos do verdadeiro Cash, o olhar torto e por vezes sonolento por conta dos remédios, o jeito desengonçado de segurar o violão e jogá-lo para trás. E mais: tanto ele quanto Whiterspoon cantaram todas as músicas do filme ao vivo, que nos mostra que o talento aqui vai longe. Phoenix possui um timbre quase idêntico de Cash, numa voz grave e vibrante. Como restante do elenco, figuras interessantíssimas pintam na história, como Roy Orbison, Jerry Lee Lewis e o nosso eterno rei Elvis Presley.

É graças a todos os demais detalhes como fotografia e trilha, além das boas atuações, que o filme chega num nível mais digno de qualidade, a gente perdoa o apelo amoroso até pelo fato de também vermos muito de Johnny Cash ali no longa. Quem sabe, se nas mãos de um Taylor Hackford o filme não nos daria uma narração ainda melhor com um Johnny Cash mais completo (em termos de história, jamais de atuação pois Phoenix está perfeito).

Beleza Americana (1999)

26 jan

Estréia da Seção En Privé com Cristiano Contreiras

“Remember those posters that said, “Today is the first day of the rest of your life”? Well, that’s true of every day but one – the day you die.”

Beleza Americana é um delicioso soco violento no sonho americano, na utopia ridícula manifestada pelo ser humano, nos sonhos mais íntimos de todo ser. O filme, criativamente dirigido por um inspirado Sam Mendes, revela-se como um estudo sobre a necessidade x ausência sexual, infelicidade, compulsão pela mentira e ilusão social. Através da construção de um cotidiano de uma família e sua adjacente vizinhança que o próprio roteiro, altamente irônico e ardiloso, desconstrói seus mundos particulares: há estereótipos visíveis, consistentes – um cinqüentão a beira dos nervos, sem perspectiva e satisfação sexual ao lado da mulher excêntrica e fútil, a filha rebelde sem causa e introspectiva e sua amiga sensual, sinônimo de beleza incontestável. Em outra perspectiva familiar: há o pai machista autoritário que impera sua educação rústica para um filho deslocado em seu próprio mundo, filho de uma mãe passiva. O mais interessante é que todos os personagens são frágeis, aparentam uma essência que não é verdadeira e tudo tende a ser a revelação do caos, ao fim, quando vem à tona: traições, voyeurismo sexual, virgindade segredada, homossexualismo enrustido em fortes ejaculações surpreendentes. Todos os aspectos mais mórbidos da realidade ao estilo de vida americano. Os personagens funcionam como objetivo de criticar essa sociedade americana contraditória, daí a necessidade de serem carregados emocionalmente com muitas facetas da neurose ianque.

Há certa perversão no tom ácido do roteiro de Alan Ball, sensacional sátira dos costumes de relações conturbadas humanas: entre quatro paredes, as aparências tendem ao vício da loucura? Como se sustenta a hipocrisia do ser humano perante ele mesmo? A articulação preciosa do brilhante roteiro evoca discussões sobre essas falsas aparências, dissimulações humanas e desejos reprimidos com muita pseudo-inocência. O ser humano trancafia dentro de si mazelas inconfessáveis, desejos ardentes maldosos e muita malícia mascarada – a falsidade pode ser sinônimo de inteligência? Ou seria uma tristeza da amargura de viver imerso numa insatisfação de vida? A sacada genial de colocar, como narrador, o próprio morto que, de maneira cínica e com leve humor, contextualiza o enfoque de sua vida – recortando seu cotidiano, desmascarando uns aos outros. Os personagens demonstram certo desequilíbrio emocional e sexual, sentem necessidade de auto-afirmação por serem tão fragilizados.

Kevin Spacey tem uma atuação soberba, auxiliado por Annette Bening, Chris Cooper e os juvenis Thora Birch, Wes Bentley e Mena Suvari. É de uma admiração chapante ver como várias tramas paralelas vão se ligando e mexendo com valores que muitos julgam intocáveis. Pura aparência. Símbolos americanos são despidos e toda a hipocrisia salta na tela levando o público ao sorriso. A personagem de Mena Suvari, idealizada pelo narrador Kevin Spacey, repleta de pétalas, exala toda a sexualidade no decorrer do filme: ela faz questão de narrar tórridas experiências sexuais para, no epílogo, descontruir-se na garota virgem altamente inexperiente, com medo de ser comum. O sexo, conceitualmente, é um dos motores do filme – mas ele está dentro de um contexto que o público sequer se importa com o seu teor. A influência sexual na vida das pessoas é mostrada de três ângulos diferentes: homossexualismo sugerido, as descobertas da adolescência e as crises e traições extra-conjugais. A montagem do filme é dinâmica e determina um auxílio moderno à mise-en-scène – esta, irrevogavelmente, irretocável. A fotografia é apurada, ângulos inusitados e com um elegante aspecto dimensional.

Quem não se recorda da loirinha fatal, imersa numa banheira cheia de rosas vermelhas? Seria a representação da sexualidade perfeita ou da própria vida condicionada num simulacro? As cores vermelhas, presente na composição da direção de arte, é delícia visual e expõe o teor sentimentalista sensual que o filme revela. O encontro dramático interage com o alívio cômico, tudo bem balanceado. E a trilha sonora expressiva de Thomas Newman instiga, dá sustância às cenas. Em uma das melhores frases do filme é revelada qual o alvo de sua crítica: “Para termos sucesso é preciso projetar uma imagem de sucesso”. Sam Mendes concretiza seu mundo de falsidade e favorece um resgate a uma identidade da humanidade deteriorada por uma vida de plástico. Puro primor. Pois é, as máscaras sempre caem.

_____

–> Publicado também no Apimentário.