Arquivos | outubro, 2010

Bruxas Bacanas!

29 out

Saudações caros!

Vou contar uma coisa inicial no post de hoje: Eu AMO Halloween! Gostaria que aqui no Brasil tivesse mais forte esta data na nossa cultura como temos o lixo do Carnaval (desabafo=ON).

Enfim, acho genial festas a fantasia, abóboras espalhadas com luzes dentro, e aquele ritual todo de gostosuras ou travessuras. E enxergo mais a data como uma festa realmente de tudo o que há de mais freak e legal do que o lance de “Vamos assistir Decapitação na Casa do Alto da Colina Parte 4″.  É claro que sempre temos espaço para o terror. Quando eu tinha 15 anos eu corri no telhado de casa com uma faca e a máscara do Pânico atrás da minha vizinha também de 15. Tomei bronca da minha mãe, assustei a família com o lance de “Será que ela é uma futura psicopata?” mas foi legal mesmo assim… (tá a faca afiada de açougue eu deveria ter trocado por uma de cartolina, mas enfim…).

Outra verdade é que eu adoro filmes de bruxas que tem uma trama de comédia ou até mesmo romance. Como é o caso das duas indicações que vou dar. Lembro que todo ano eu presenteava ou pelo menos desejava um feliz dia das Bruxas para as minhas amigas (a gente se chamava carinhosamente de “bruxa”) e esses filmes me fazem lembrar absurdamente delas. Então, além da indicação, eu dedico esse post para as queridas Barbara e Amanda Bia, minhas bruxas preferidas e lindas ^^

Então, vamos lá:

Abracadabra -  (1993) – Dir. Kenny Ortega

“Oh look, another glorious morning. Makes me SICK!”

Criado pela Disney em 1993, e um dos grandes clááásicos de Sessão da Tarde para a data. Traz no elenco Bette Midler como Winnie (excelentíssima), Sarah Jessica Parker como Sarah (glamourosa desde sempre né?), e Kathy Najimy como Mary. As três fazendo o papel das Bruxas que são libertadas de uma maldição depois de 300 anos.

Destaque para a cena da música I Put Spell on You com Bette Midler arrasando na performance.

Filme super gostoso de assistir, com pitadinhas de fantasias boas que só a Disney sabe dar. Fiquei com vontade de assistir agora =P

Confira o trailer:

 

Da Magia à Sedução -  (1998) – Dir. Griffin Dunne

“I don’t know. Maybe I had my happiness. I don’t want to believe it but, there is no man, Gilly. Only that moon.”

Não é um puta de um filme, evidente. E garotas, assistam sem a presença de seus respectivos companheiros. Namorados odeiam filmes assim. Se ele amar, suspeite.

De qualquer forma, nem mesmo eu amo este filme. Gosto dele porque tem um toque especial, um certo humor negro (mesmo que pouco), um romantismo meio mágico no ar, e o clima de feitiçaria que deixa o filme muito interessante. Não é bem seu roteiro que atrai, considerando que é só mais uma comédia romântica. Mas sim, o estilo e a linha que ele segue. Todo filme romântico ou comédia que mistura magia pra mim, fica sendo muito mais “mágico” (num diga!). Afinal, já que estamos falando de algo irreal como casais viverem felizes para sempre, e amor eterno, já chutemos logo o balde e fazemos uma história 100% fantasia com direito a dança nudista ao Luar e Margueritas a Meia-Noite, correto?

Confira o trailer:

Metrópolis (1927)

26 out

“There can be no understanding between the hand and the brain unless the heart acts as mediator”.


Metrópolis foi um filme que mais tarde se tornou um dos clássicos do expressionismo alemão. Desenvolvido em 1927 pelo austríaco Fritz Lang, muito das cenas foram cortadas pela produtora alemã UFA (Universum Film Aktiengesellschaft) e o filme ainda saiu de circulação. Foi só em 2008 que em Buenos Aires, foram encontrados rolos em 16mm no Museu de Cinema Pablo C. Ducros. Daí o filme foi restaurado mesmo com alguns frames ainda danificados, perdendo ainda também um bom trecho sobre a trama e alterando até mesmo a narrativa.

Com este ‘novo’ material foi reconstruído o filme, e na 34º Mostra de Cinema de São Paulo, o filme foi exibido para cerca de 12 mil pessoas no lado externo do Auditório Ibirapuera. E a cereja do bolo: a trilha sonora do filme, regido pela Orquestra Jazz Sinfônica de São Paulo.

E eu confesso, apesar de ser muito suspeita pra falar (e já explico o porquê): Foi emocionante ver, toda aquela galera num frio e garoa fininha de alguns momentos, sentados naquela grama nada fofinha por praticamente 3 horas, assistindo um filme mudo de 1927 e com bocas abertas, além de um aplauso super longo ao final do filme. Foi realmente emocionante. Eu ressalto ainda a educação e o respeito pela cultura, de toda aquela galera que assistiu essas quase 3 horas de filme, no maior silêncio sem ouvir absolutamente nenhum barulho de celular ou pessoas conversando. Nem em cinema se consegue isso!

Pessoal chegando para assistir a exibição

Agora, explicando o porquê de que pra mim foi maravilhoso, este filme foi um dos meus pontos de estudo para meu trabalho de Conclusão de Curso como designer neste ano. Desenvolvi um Jogo de Realidade Alternativa com referências do Expressionismo Alemão e Metrópolis foi um dos filmes ícones que marcou todo o embasamento de meu estudo, seja por sua própria estética quanto por sua conotação futurista e de ficção científica.

Na época, Metropolis foi considerada como a produção mais cara filmada na Europa. Conta uma história que se passa no século XXI, do qual os trabalhadores eram escravizados pelas máquinas. Era uma simbologia da preocupação com a mecanização da vida industrial no estilo de vida metropolitano, questionando a importância do sentimento humano.

Orquestra Jazz Sinfônica abaixo do telão =)

 

Metropolis apesar de relações com as características de filmes deste período, ele é diferenciado por seu cenário e roteiro, dos primeiros filmes expressionistas onde se destacava uma história lúdica remota, e por vezes pitorescas, como o próprio O Gabinete do Dr. Caligari, Nosferatu, e Golem (representados pelo terror e ambientação soturna). Ele representa mais a Alemanha industrial, e a exaltação da sociedade urbana:

“Lang traça um inventário seletivo das angústias associadas à cidade moderna, ao poder maléfico da técnica, além de um elogio à colaboração de classes, propondo, em seu roteiro, uma reconciliação entre o proletariado e o capital.” (BENFATTI).

Fritz Lang não era muito simpatizante do roteiro de Thea von Harbou sobre o capitalismo e o operariado, incluindo o papo bonitinho sobre o mediador entre o cérebro e a mão. E apesar de sua visão mais pessimista sobre o assunto, e de ter sido considerado na época um certo fiasco, hoje nós sabemos o papel impactante e a visão que naquela época Lang possuía sobre o futuro e o próprio comportamente de máquina e homem. Metrópolis não é um dos melhores filmes já feito, porém é além de uma obra prima influente, é ainda vivo e respeitado dentro do cinema mundial.

“Metrópolis teve várias versões para o cinema, sendo a mais conhecida justamente a mais criminosa: a que foi musicada por Giorgio Moroder nos anos 80, a partir de um corte de apenas 83 minutos, contra os 153 minutos da estreia alemã e os 116 minutos da exploração comercial nos EUA.” (via Cineclick)

Quanto a análise do filme em si, ele é bastante envolvente para um filme mudo em preto e branco. Possui narrativas reflexivas até no que diz respeito sobre a evolução humana ou mesmo nossa estupidez. Brigitte Helm faz um papel convincente de Maria tanto na versão malvada e com tiques nos olhos, quanto na versão de boazinha. O interessante de um filme mudo é que nos leva a reeducação no que diz respeito de linguagem visual: Por aparecer textos explicativos em somente alguns momentos, você se atenta muito mais nas imagens a fim de obter maior entendimento da história. Quanto ao cenário, por mais tosco que possa parecer em alguns momentos, Metrópolis traz uma visão futurista bastante interessante e trabalhada, que com certeza serviu de referência anos depois para que George Lucas pudesse criar as cidades espaciais de Star Wars.

Sinopse: Metrópolis, ano 2026. Os poderosos ficam na superfície e lá há o Jardim dos Prazeres, para os filhos dos mestres, enquanto os operários, em regime de escravidão, trabalham bem abaixo da superfície, na Cidade dos Operários. Esta poderosa cidade é governada por Joh Fredersen (Alfred Abel), um insensível capitalista cujo único filho, Freder (Gustav Fröhlich), leva uma vida idílica, desfrutando dos maravilhosos jardins. Mas um dia Freder conhece Maria (Brigitte Helm), a líder espiritual dos operários, que cuida dos filhos dos escravos. Ele conversa com seu pai, que diz que é assim que as coisas devem ser. Quando Josaphat (Theodor Loos) é demitido por Joh, por não ter mostrado plantas que estavam em poder dos operários, Freder pede a ajuda dele e vê as condições que existem no subsolo. Paralelamente Rotwang (Rudolf Klein-Rogge), um inventor louco que está a serviço de Joh, diz ao seu patrão que seu trabalho está concluído, pois criou um robô à imagem do homem, que nunca se cansa ou comete erro, e diz que agora não haverá necessidade de trabalhadores humanos, sendo que em breve terá um robô que ninguém conseguirá diferenciar de um ser vivo. Além disto decifra as plantas, que são de antigas catacumbas que ficam na parte mais profunda da cidade. Curioso em saber o que interessa tanto aos operários, Joh e Rotwang decidem espioná-los usando uma passagem secreta. Ao assistir a uma reunião, onde Maria prega aos operários lhes implorando que rejeitem o uso de violência para melhorar o destino e pensar em termos de amor, dizendo ainda que o Salvador algum dia virá na forma de um mediador. Mas mesmo este menor ato de desafio é muito para Joh, que ouviu a fala na companhia de Rotwang. Assim, Joh ordena que o robô tenha a aparência de Maria e diz para Rotwang escondê-la na sua casa, para que o robô se infiltre entre os operários para semear a discórdia entre eles e destruir a confiança que sentem por Maria.

Pra quem quiser saber mais sobre o evento que rolou na 34º Mostra, acesse a matéria de Heitor Augusto no Cineclick.

Mary & Max (2009)

22 out

“Max hoped Mary would write again. He’d always wanted a friend. A friend that wasn’t invisible, a pet or rubber figurine.”

Animação em Stop Motion, dirigido e escrito por Adam Elliot, o longa traz a todo instante mensagens subjetivas porém claras do que se mostra em cena e do que é informado pela narração de um jeito ingênuo e até mesmo cômico. Mas, muito pelo contrário do que se possa imaginar, apesar das doces pitadas engraçadinhas da animação, você não compara ele com nenhum outro longa animado que já viu. Seria um longa cult, Lado B, que dentro do gênero em que está inserido, não há nada que se compara. De qualquer forma, o foco é outro. Mary & Max não é pra criança ver…

Mary Dinkle, é uma garotinha de 8 anos que vive na Austrália e não tem amigos. Tem seu pai que trabalha numa fábrica colocando cordinhas nos chás, e sua mãe depressiva e alcoólatra que praticamente não liga pra garota.  Pra ela, as crianças nascem das canecas de cerveja (história contada pelo seu avô). Certo dia, no Correio, Mary tem a idéia de escrever para alguém em Nova York para perguntar como que os bebês nascem na América. E eis que ela acaba pegando o contato do Novaiorquino de 44 anos, Max Jerry Horowitz. Por coincidência, um ser solitário, sem amigos, apenas com bichos de estimação e Sr. Ravioli, um amigo imaginário.

“Do you have a favourite-sounding word? My top-five are ‘ointment,’ ‘bumblebee,’ ‘Vladivostok,’ ‘banana,’ and ‘testicle.’”

Na época em que se passa a história (baseada em fatos reais) era muito comum ter amigos virtuais através de cartas e correspondências. Mary enviava chocolates para Max, e aqui temos um detalhe curioso que é o que chama mais atenção no longa, além do toque melancólico: Mary vive numa Austrália em sépia, com tons marrons e bege. Max, vive numa Nova York cinza, sem alguma saturação. É quase um cenário do Expressionismo Alemão, com variações de luz, porém sem as irregularidades das formas, como num cenário de O Gabinete do Dr. Caligari. Contudo, impossível negar as referências cinematográficas. E tudo isso dá um ar mais dramático e expressivo ainda, atrelado com a trilha sonora e toda linguagem da animação. E o ponto interessante aí, é que todas as coisas de Mary que chegavam a Max tinham cores, mesmo que sejam os tons amarelados e amarronzados. Max acaba de certo modo “colorindo” um pouco sua vida com a amizade única de Mary, e em elementos como o gorrinho vermelho que ele ganha, você consegue observar isso. Elliot comentou numa entrevista que destacou elementos em vermelho nos dois lugares, num minimalismo que possa dar um toque especial nos detalhes, ressaltando coisas simples. Nós concluimos do ponto de vista gráfico, que a composição visual de Mary & Max, bem como os detalhes de cenário foram muito bem elaborados, considerando um Stop Motion em argila.

Durante todo filme, tanto pela narração quanto pelas cartas dos personagens cativantes, há uma ingenuidade carismática. A inocência das conclusões ou dos achismos de Mary ou de Max, dá um ar cômico para o longa e é por isso também que você consegue se prender a história, de uma forma em que você assistiria por horas e horas as trocas de cartas dos dois. Sem ações, efeitos, aventura ou tensões. Tudo deliciosamente monótono.

A estética dos personagens é bem trabalhada, mesmo que com simplicidade. Há poucas firulas ou gráficos elaborados. Os personagens são simples, feito em massinha, porém com características essenciais que dá toda a interpretação de seus estilos. Além disso, o cenário é rico em detalhes e gráfico, mesmo que monocromático.

“He smelled like licorice and old books, she thought to herself, as tears rolled from her eyes, the color of muddy puddles.”

No geral, o filme todo faz você mergulhar numa história repleta de analogias, comparações e até mesmo de reflexões de forma simplificada sobre as coisas. O valor da amizade, e o esforço do outro em fazer você se sentir bem, como as lágrimas enviadas por Mary, a Lata de Leite Condensado e uma mensagem de perdão, ou um coração de chocolate com a frase: “Ame sobretudo a si mesmo.” E finaliza com a bela mensagem de Ethel Mumford:

“Deus nos dá familiares. Ainda bem que podemos escolher nossos amigos”.