Arquivos | junho, 2010

O Show de Truman (1998)

29 jun

“Good morning, and in case I don’t see ya, good afternoon, good evening, and good night!”

“Um universo que existe cada vez mais informação e cada vez menos sentido”- Jean Baudrillard afirma que nossa realidade foi substituída por simulacros, dentro de uma sociedade pós-moderna onde o poder da mídia e a linguagem da propaganda é fortemente explorado. Um mundo de simulações, onde não se sabe mais o que é real, já que a imagem torna tudo mais real do que o próprio real… Não, isto não é tão somente O Show de Truman. Isto é o nosso mundo, muito prazer…

Claro que O Show de Truman não ganharia um Oscar. Felizmente, não consideramos como grandes filmes unicamente os que recebem a estatueta. Deve-se considerar a linguagem do cinema, a essência de um sentido. E vamos admitir, este filme não é um entretenimento. Após vê-lo, você entra num conflito psicológico. Te faz refletir em aspectos da vida. Uma crítica ao mundo moderno, à falta de privacidade, ao consumismo e ao rótulo. O filme nos mostra entre planos e angulos oculares, que poderíamos (se ainda não somos) ser um Truman da vida, por não questionarmos nossa realidade, e desta forma vivermos numa zona de conforto. Podemos viver assim por anos e anos. Se não fosse (para alguns) a desconfiança ou mesmo inconformidade da nossa verdade, a vontade de descobrirmos mais, seriamos Truman então, participando num elenco que ri e chora com você, não por você?

Por fim, Truman é aquele que questiona. O que desconfia e o que busca um sentido maior do que aquele que o conveniente Cristof pode dar.

Truman (Jim Carrey)  vive sua vida aparentemente comum e sussegada, trabalhando com seguros,  numa cidade chamada SeaHeaven rodeada por mar. Praticamente uma ilha (Walllt!).

É casado com uma enfermeira, se dá bem com os vizinhos, todos o cumprimentam e parecem adorá-lo. O que ocorre é que Truman passa a desconfiar desta vida, pois nunca consegue abandonar SeaHeaven. De verdadeiro, na realidade só havia ele mesmo (“True Man”?). Todas as pessoas, familiares, amigos de infância, eram atores que participavam do reality show de Truman desde seu nascimento.

Eram 5.000 câmeras espalhadas em SeaHeaven para acompanhar Truman em absolutamente tudo que ele fazia. O criador deste reality show, Cristof (belíssima interpretação de Ed Harris) fica escondido junto com todo o restante da produção, na Lua artificial da cidade, onde ele controla o dia, a noite, e todos os elementos da natureza. Enfim, uma curiosa analogia de Deus…

“Como isto irá terminar?” é uma das primeiras perguntas que surgem, que significa muito mais do que parece. O filme é cheio de sarcasmo sobre a publicidade barata, a imagem rotulada, e a falta de humanismo. Uma cena interessante de comentar é a que Meryl (esposa de Truman) mostra um pote de chocolate para Truman de uma forma como se estivesse fazendo (e estava) um comercial do produto.

Um dos pontos fortes do filme, é a presença de elementos cinematográficos, que através de uma linguagem perfeita, consegue exprimir detalhes e sentidos que se pretende passar com a história. Os ângulos das câmeras, não só as “câmeras do programa” que aparecem nitidamente mesmo mais pro meio do filme, (quando Truman chega a ter a certeza de que está sendo vigiado), como também os angulos minunciosos, com extremidades escuras. A linguagem deste filme é expressiva, sólida. E até melancólica.

Truman nos leva a questionar também nossas meias verdades, vai muito mais além do que a história dentro de um longa. O final, quando Cristof fala com Truman, é ainda uma analogia direta de Deus, passível de milhares de interpretações filosóficas. A manipulação que Truman foi sucedido desde criança, com a morte forjada do pai, para resultar num trauma, da qual teoricamente e considerando lógicas da psicologia, Truman jamais sairia de seu mundo de mentira, para enfrentar um medo do desconhecido. Este era o objetivo de Cristof, considerando que uma vez que Truman abandonasse SeaHeaven, o programa acabaria.

É aquele tipo de filme, cult e alternativo para os olhos de alguns, pouco compreendido aos olhos de outros, e hipnotizante e filosófico aos olhos de quem absorve seu conceito. É uma ruptura dos padrões de filmes de entretenimento. E Jim Carrey surpreendeu muitos na época, considerando que o ator parecia servir só pra papagaiadas no estilo O Máscara. Há não muito tempo, surgiu ‘Brilho eterno de uma mente sem lembranças’, também mostrando um Jim Carrey diferente. Eu particularmente prefiro este Jim Carrey. O Jim Carrey de Truman, e de Joel.
Foi uma grande sacada de Peter Weir, escolher Carrey, numa faceta impagável, pois mesmo com as cenas cômicas do filme, é sobretudo um drama, que lhe deixa triste mais por questões abstratas do que pela própria trama em si. Pois você passa o filme todo com pena de Truman, e ao vê-lo sair (eu pelo menos) senti desgosto por todos aqueles espectadores que torciam para a saída de Truman. Afinal, são os mesmos que davam audiência para o programa. Contudo, quem somos nós para criticar uma hipocrisia que nos parece tão familiar?

Entre irmãos (2009)

28 jun
“I don’t know who said ‘only the dead have seen the end of war’. I have seen the end of war. The question is: can I live again?”

Versão americana do filme homonimo dinamarquês de 2004.   Complicado dizer qual seria o melhor, não assisti a versão original, mas vou analisar sobre o prisma hollywoodiano somente, sem fazer relações ok?

Ao fim do filme, e numa breve retrospectiva que sua sinapse gera, a primeira coisa que pode passar na sua cabeça é: E…?

Três bons bons atores protagonizam a história: Jake Gyllenhaal – como o irmão ovelha negra  Tommy, Tobey Maguire como capitão Cahill, se esforçando para mostrar que é mais do que um EmoSpiderMan (não provou nem surtando no final), e Natalie portman, no meio dos dois cuecas, fazendo o papel de Grace, esposa do capitão.

A história é tão óbvia, tão já usada, que você assiste o filme só esperando que ocorra algo de diferente: Tommy volta da prisão, e o Capitão Cahill vai para o Afeganistão com o exército. É capturado e logo, Grace recebe a notícia de que o marido está morto. Pode-se considerar que o interessante, é que apesar de Grace dar apenas um beijo no irmão de Cahill, nada mais acontece, porém quando Cahill volta para a casa, sendo resgatado (num digaaa!) ele tem a absoluta certeza de que é duplamente traido (irmão e esposa). Achei interessante isso, é a unica coisa que o filme consegue mudar de todo o resto que já existe: a neura psicológica de que deve ter ocorrido algo mais, sem ter ocorrido. Além disso você tem a visão de como a guerra é capaz de mudar o pensamento e o comportamento das pessoas.


A outra coisa legal do filme, é que resgatam ‘Bad’ do U2, um clássico dos anos 80, e ainda no fim,há uma música tema, também do u2 (belíssima ‘Winter’).

Uma pena que existam mais de 300 filmes com a mesma temática, fazendo deste pouco inovador e até vazio. As cenas que mostram Cahill capturado, paralelo com o clima bom de sua familia com Tommy dá uma pequena agitaçãozinha na trama e o filme não fica tão parado. Mas é deprimente… Você vê mais uma vez os Estados Unidos como bonzinhos inofensivos que lutam pela pátria enquanto todo o resto do mundo são ruins, malvados e sem coração. Super conveniente como sempre… E a cena que mostra Cahill sentando o cano nas costelas do companheiro serve para dramatizar ainda mais a situação e ter mais tristeza ainda… eu como sou sangue frio, notei este apelo de inicio, e não me comovi muito com a cena…

Gosto da atuação de Tommy (Gyllenhaal), ele é debochado, sarcástico e não tá nem aí pra nada, como na maioria dos filmes que assisti com ele. Já Cahill (Maguire) chega até a impactar com o olhar de um traumatizado pela guerra. Mas pra mim, ele sempre será o Spider Pig Man.

Assista o filme quando você estiver num período ocioso, talvez desempregado e com muito tempo para gastar… No mais, opte por Pearl Harbor…

Top 10 Personagens de Tim Burton

25 jun

Saudações!

Quem me conhece, sabe que Tim Burton é o meu diretor número 1. Não que não houvesse melhor, evidente. Há diversos bons diretores, responsáveis por filmes inesquecíveis, e seria um tanto quanto exagerado julgar o Burton ser o melhor de todos.

Mas o que faz eu ter essa admiração, é não só a identificação que tenho com seu estilo esdrúxulo, bizarro ao mesmo tempo carismático, mas como também a linguagem visual que ele domina em praticamente todos seus trabalhos.

Apesar do fracassado roteiro de Alice (que tem uma composição visual perfeita), muitos filmes dirigidos ou produzidos por Burton, traz um personagem cativante, não só por suas esquisitices como também pela mensagem que é passado através destes.

Então aqui vai a minha lista dos 10 melhores personagens de Burton. Créditos não somente para Burton, mas para o ator-atriz que representou cada um, de uma maneira peculiar…

Então, vamos lá!

10 – Victor Van Dort – A Noiva Cadáver (2005)

“With this candle… I will set your mother on fire.”

Victor é um personagem meio banana, mas faz parte de sua característica cativante.

Me faz lembrar muito Ichabod, de Sleepy Hollow (outro banana). De qualquer forma, ele é engraçado ao mesmo tempo que é atrapalhado.

Ao contrário do que podemos imaginar, os bonecos não são feitos de massinha neste Stop Motion. São bonequinhos mesmo, muito bem feito por sinal, e eu me atrevo a dizer que apesar de elementos de um personagem deste estilo onde possui características físicas que são exageradas para dar ênfase e um ar mais cartoon (como os olhos gigantes de todos), Victor parece um Vincent crescido (Falarei de Vincent mais adiante).

Não é bem o meu personagem preferido, mas tem lá seu charme, o que explica sua colocação…

09 – Red Queen – Alice no País das Maravilhas  (2010)

“Off with their heads!”

Em minha singela opinião, nenhum personagem de Alice é tããooo cativante. E isso não é culpa dos personagens, considerando o talento contrastante de Helena e Depp (nada a declarar daquela loirinha protagonista). Eu acho que o problema tá na história…

Mas voltando ao foco, A Rainha Vermelha é um dos melhores personagens não só pelo temperamento forte que ela passa, como a própria composição visual do personagem: Praticamente um cartoon, sem ser. Figurinha exótica, cabeçuda, nanica malvada e meio fútil. Adorei ela, e se não fosse por Helena Bonham-Carter não haveria mais ninguém capaz de representar este papel. A atriz domina.

08 – Jack Skellington – O Estranho Mundo de Jack  (1993)

“And I, *Jack*, the *Pumpkin King*, grow tired of the same old thing.”

Uma pena que muitos vejam O Estranho Mundo de Jack como um filme de Burton e quando descobrem que ele é o produtor somente, fica por isso mesmo. A realidade é que Henry Selick é tão genial quanto Burton no quesito bizarrice. Se Coraline tivesse uma relação com Burton, colocaria ela aqui na lista também…

Adoro este Stop Motion porque ele tem um ar diferente dos demais atuais que assistimos. Os personagens tem um andar meio tosco, que o mais incrível é que combinam com eles e com a animação.

Jack é um personagem bem desenhado: Pernas gigantes e fininhas, terninho finesse de risca de giz, gola de morcego, cabeça de abóbora, boca rasgada, buracos pretos no lugar de olhos, enfim, tantos elementos pitorescos e no entanto, dotado de um carisma do começo ao fim.

07 – Ichabod Crane – A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (1999)

“I see…”

Taí o meu personagem banana preferido!

E Johnny Depp foi mestre para representar este. Os espasmos, gagueira, enfim a crise de medo e até mesmo suas expressões tentando ser convincente a respeito de sua coragem. No fim ele acaba sendo, coisa previsível, mas de qualquer forma, durante o filme, todo cenas com ele dando uma de espertão ou desmaiando por causa da aranha são algumas das partes legais… fora as engenhocas e apetrechos de exames que ele utiliza…

06 – Coringa – Batman  (1989)

“Haven’t you ever heard of the healing power of laughter?”

Foi Heath Ledger o responsável por tirar o trófeu Jóinha de melhor Coringa das mãos de  Jack Nicholson…  O ator é bom em muitíssimos filmes, e convenhamos, como Coringa também. Mas, eu devo admitir que Ledger levou a melhor. Ele conseguiu ser mais louco, mais insano, mais ruim, mórbido, sarcástico, irônico… opa! Estávamos falando de Nicholson como Coringa né?  Deixemos o Ledger para um post especial depois então =)

As risadas dementes, e expressões assustadoras, faz o Coringa sempre dar um destaque. Sem dúvida, um dos melhores vilões dos HQ´s…

Bom, não tem mais o que falar… Jack Nicholson é foda… Mas não mais como Coringa… (eu tentei).

05 – Beetlejuice – Os fantasmas se divertem (1988)

“I’m a ghost with the most, babe.”

Fato é que o BeetleJuice do desenho é mais charmoso e até menos encardido. Eu tinha medo desse Beetlejuice representado por Michael Keaton, mas até que deu certo a atuação.

Aliás, Keaton (que deve estar numa fase ruim) até deu umas indiretas diretas querendo uma continuação do filme. Eu particularmente morro de medo de continuações ou remake… Muito perigoso e em alguns casos, o resultado sai um desastre e prejudica até o que poderia ser eterno. Mas, enfim… a gente aguarda maiores detalhes né? Só acho que o ator tá meio idoso pra ser novamente o Besouro Suco…

 

04 – Vincent- Vincent (1982)

“His voice was soft and very slow,  As he quoted The Raven from Edgar Allan Poe, ‘And my soul from out that shadow that lies floating on the floor, Shall be lifted – Nevermore!’”

Trágico, apaixonante,  com referências claras de Expressionismo Alemão! Vincent consegue ser cativante em 6 minutos!

Primeiro Stop Motion de Burton, um curta de 1982 onde é narrado pelo “deus ” Vincent Price (Inventor de Edward, voz da intro de “The Number of the Beast” do Iron Maiden, sim ele mesmo!) a história de um garoto chamado Vincent Malloy que sonha ser Vincent Price.  A narração é uma espécie de poema feito pelo próprio Burton, e é como se fosse um curta auto-biográfico até… Existe uma dramatização ao mesmo tempo que é meigo nessa animação. Pura essência de Tim Burton!

 

03 – Ed Bloom – Peixe Grande (2003)

There are some fish that cannot be caught. It’s not that they are faster or stronger than other fish, they’re just touched by something extra.

Tanto o jovem Ed (Ewan McGregor) quanto o mais velho (Albert Finney) trazem para o personagem um rosto sonhador, uma mente que viaja na imaginação e por mais que seja criticado por isso, não desiste nunca. Peixe Grande é uma linda relação que envolve a imaginação em contar histórias daquelas que todo mundo diz ser “histórias de pescador” (o nome seria então uma metáfora bem bolada, certo?) e na descrença que as pessoas tem disto tudo. Ou mesmo de sonhar… é o caso do filho de Ed que passa todo o início num ceticismo e numa ausência de tolerância para o que não parece real.

As cores fortes e saturadas deste filme, principalmente na cena das flores, é uma característica que adoro ver nos filmes de Burton. Em alguns casos, elas transmitem um conceito esmagador (veja em Edward…).

Ed Bloom é um personagem que sonha do começo ao fim. Há quem diga que ele minta, contando histórias que não existem. Mas, há quem diga que ele dá esperança. Qual seria sua opinião sobre Ed Bloom?

 

 

02 – Todd – Sweeney Todd – O Barbeiro demoníaco da Rua Fleet (2007)


“♫ I will have vengeance. I will have salvation… Who, sir? You sir!No one’s in the chair. Come on, come on! Sweeney’s waiting. I want you bleeders. ♪”

 

Baseado na ópera homônima, Sweeney Todd é meu preferido de Burton. A melhor das fotografias, e isso é puro gosto pessoal, mas simplesmente amo o tom gélido do filme inteiro com aquele sangue 100% escarlate contrastando tudo! Parece uma pura neura de designer, mas na realidade esses detalhes visuais fazem todo o sentido e transmite toda a idéia.

E o personagem… Olhe para ele. Seu olhar trasmite exatamente o que se pretende e o que conta na história:  raiva, vingança, rancor. É assim o filme todo e no fim, uma ruptura: Você vê nos olhos de Sweeney angústia e amor! (OhhhH!).  Apesar de tudo, ele carrega uma essência cômica que Depp é mestre em fazer principalmente em parceria com Tim. Destaque pra cena de Todd na praia com aquele Maiô Beetlejuice… demais!

 

 

01 – Edward – Edward, mãos de tesoura (1990)


“Kevin, you wanna play scissors, paper, stone again?”

 

Quem consegue assistir este filme sem amar Edward? Ou sem sentir pena, e compaixão por uma figura tão cavernosa e doce ao mesmo tempo?

Pra mim, é uma obra prima que Burton conseguiu criar. E, vamos falar de contraste de novo…

Tudo é puro colorido, o bairro todo… e só Edward é a figura negra cheia de metais. Essa é uma analogia na verdade de tudo aquilo que foge do padrão normal que não se adequa a todas as cores e é visto como sombrio. Edward é a personificação da esquisitice humana que pode ser amada por uns, desprezada ou injustiçada por outros. E quão não é o sentimento de repulsa à injustiça em que Edward sofre. Mas eu lhes digo: Vi muita gente ser injustiçada pelo o que é… E muita gente que achou o filme bonitinho, não consegue ver que possui comportamentos similares ao de Jim com alguma figurinha estranha do passado… (seria meu trauma de nerds anti-social dos anos 80 aflorando o.O?).

Sairemos então do lado pessoal. Edward se fode no filme todo, desde o começo quando seu inventor morre antes de finalizá-lo. Mesmo na cena em que ele se revolta, ele ainda sim é cativante. Mas ainda sim, infeliz…